12/01/10
11/01/10
02/01/10
31 de Dezembro de 2009
O mês de Dezembro foi um mês estranho… ou não fosse ele o mês do Natal… mas começo pelo princípio.
No dia 5 de Dezembro a diocese de Bissau, à qual Canchungo pertence (a Guiné tem duas dioceses – Bissau e Bafatá), realizou a sua peregrinação anual a Cacheu, onde existe a que dizem ser a primeira igreja dos portugueses na costa ocidental africana. Foi um momento muito bonito com missa campal, cânticos, danças. Um momento de louvor e comunhão que me fez bem, uma vez que ainda não tinha tido oportunidade de participar em nada da igreja aqui (o trabalho ao fim-de-semana não ajuda neste ponto).
No final tive um encontro muito feliz com uma colega, leiga consagrada, que não via há mais de cinco anos e que conheci em Salamanca, num encontro ibérico de dehonianos. Nessa altura eu acabava de regressar de Moçambique, do primeiro ano, 2003, e pensava fazer da missão o resto da minha vida, e ela, missionária que tinha estado também no Gurúè, como eu, pensava com os seus setenta anos deixar-se de vez das aventuras africanas e ficar pelo Porto, numa casa de apoio a jovens estudantes. Éramos ambas representantes de “braços” da família dehoniana – eu dos leigos voluntários e ela dos leigos consagrados.
Cinco anos depois… quem diria que nos iríamos encontrar em Cacheu, na Guiné?! Parece que a vida trocou as voltas às duas… :D Eu, casada, apesar de continuar “em missão”; e ela, apesar dos seus setenta e cinco anos, na Guiné há quatro anos tendo vindo apenas substituir uma colega por três meses… As voltas da vida! Têm o seu interesse, não haja dúvida!
A nível de trabalho o mês ficou marcado pelo arranque dos acompanhamentos semanais aos formadores que vou coordenar e das formações aos professores. Foi um mês intenso que exigiu muita preparação minha e grande empenho do meu grupo de formadores. Até porque os imprevistos… Imaginem, tínhamos previstas seis sessões de formação – três de português e três de pedagogia – o que implicaria um grande trabalho de preparação dos formadores. Se bem se lembram, eu tenho um grupo de onze formadores que dá estas formações em cinco turmas diferentes, perfazendo setenta e cinco professores na região que coordeno, Cacheu. No início do mês de Dezembro, o ministério comunicou-nos que as nossas formações das férias do Natal teriam de ser adiadas pois a Unicef propôs-se ministrar formação também naquelas datas… e como a Unicef é a Unicef… lá tivemos nós de ceder. E abrandamos o ritmo da preparação, naturalmente… na semana anterior às férias, o ministério contacta-nos a dizer que afinal a Unicef não avança e temos de avançar nós! Foi um stress… Andamos nós a “pregar” a necessidade da planificação, da organização, e vem a Unicef e faz uma coisa destas! Ficamos mesmo furiosos! E lá tivemos nós que, numa semana, agarrar as formações de pedagogia (de Português acabamos por aceitar fazer apenas uma, a bem da qualidade), apenas possível devido ao empenho dos nossos formadores que passaram tardes inteiras lá no escritório a preparar tudo.
Para além da preparação das sessões de formação, também estou encarregue de tratar de toda a logística – marcar as salas nos diferentes locais, organizar os materiais da sessão para os setenta e cinco professores-formandos. Acreditem que dá o seu trabalho!
Por último, assisti às sessões de formação propriamente ditas pois o plano de acompanhamento e formação dos nossos formadores pressupõe que a supervisora assista a três sessões de cada formador no sentido de melhor os poder orientar. Foi a minha primeira experiência nesta função e digo-vos que, para mim é um sufoco! É a mesma sensação de quando vou assistir a um concerto e conheço as peças todas e só me apetece cantar também… :D Fiz um esforço muito grande para não intervir durante as sessões!
Em Janeiro começarei a assistir às aulas dos professores que estão a ser alvo das nossas formações. O projecto prevê que eu acompanhe vinte e cinco dos setenta e cinco professores-alvo assistindo a três das suas aulas. Em suma, de Janeiro a Junho não farei mais nada, durante as manhãs, a não ser ir às escolas assistir a aulas…
Durante uma das sessões de formação a que assisti, fiquei muito surpreendida com uma constatação – a maior parte dos professores que estão a fazer formação connosco nunca tinha visto um mapa da Guiné-Bissau. Que estranho! Sabem o nome das regiões de trás para a frente, mas não sabem apontar nenhuma no mapa… Se nunca o tinham visto… Como pensar a terra onde habitamos se nem conhecemos a forma que ela tem? Nem a sua relação com o resto do mundo? Não consigo imaginar como será…
O mais grave é que estamos a falar dos professores, e não dos alunos…
Mas como poderiam conhecer um mapa se as escolas não os têm? Se eles próprios aprenderam sem livros ou qualquer outro tipo de material?
Sei que já tenho alguns anos de experiência disto, mas acho que nunca irei deixar de me surpreender!
Neste sentido, a FEC tem um papel importantíssimo, uma vez que distribui um armário pedagógico a cada escola do projecto com mapas, cartazes, esqueletos, dicionários, gramáticas e outros materiais que poderão constituir uma mini-biblioteca (ou centro de recursos) para cada escola. E, não menos importante, nas nossas formações, ensinamos como usar cada um dos materiais para tirar proveito deles na sala de aula.
Um destes dias, quando andávamos lá por casa com os cinco mapas da Guiné para os nossos formadores levarem para as suas sessões, o Miguel teve uma experiência muito bonita e curiosa. O Miguel, como já vos disse, conquistou aqui a pequenada com as suas brincadeiras, a sua gargalhada, os seus rebuçados… Um dos seus mais fiéis amigos, é o pequeno Uyé, que terá cerca de seis anos e não fala uma palavra de português. Aliás, à minha frente, não fala uma palavra de língua nenhuma… Quando está sozinho com o Miguel desata a falar numa língua incompreensível, o que não os impede de terem grandes conversas. É fantásticos ouvi-los da janela do escritório – o Uyé com palavras estranhas e muitos gestos, e o Miguel num português meio acrioulado e também muitos gestos… e podem passar nisto um tempo infindável!
Pelo que pensamos, o Uyé será muçulmano e frequentará uma escola corânica, pelo menos é o que as suas vestes e linguagem deixam adivinhar. Tem um olhar tão doce…
Mas estou a afastar-me do que ia contar… numa das visitas do Uyé, o Miguel foi buscar um mapa da Guiné e mostrou-lho… haviam de ver o seu olhar espantado… o que terá ele percebido do que estava a ver? O Miguel apontava e dizia “Mapa di Guiné”, “Guiné”! Depois mostrou-lhe Canchungo, “aqui, aqui, Canchungo”! E o Uyé a tentar repetir, sem conseguir, o nome da sua terra… Foi mesmo um momento bonito, de descoberta e fascínio.
O curioso foi que ele, após inspeccionar o mapa todo o com o seu olhar atento, mal viu a bandeira da Guiné, no topo do mapa, apontou e disse “PAIGC”… Inacreditável!
Duas vezes inacreditável – uma, que a bandeira de um partido seja a bandeira do país, sobretudo num país pluripartidário e que se diz democrático; outra, que um miúdo que não fala nem português nem crioulo, que não sabe dizer o nome da terra onde mora, consiga olhar para um símbolo e o identifique com uma realidade política… Curioso, não?
Grande Uyé, que sem saber nos ensina algumas coisas…
Lembram-se de eu dizer que guineense só come arroz? Tivemos duas histórias engraçadas sobre isso. Uma passou-se com um rapaz, grande amigo da FEC já há alguns anos, que nos visita diariamente para consultar alguns livros, carregar o telemóvel, aproveitar da luz para estudar… É uma presença diária que também nos serve de auxílio – ajuda-nos a encher os bidões de água, toma conta da casa quando nos ausentamos, etc.
Como ele aparecia sempre no horário de jantar e nos parecia que ficava sem comer nada, começamos a convidá-lo para ficar e agora tem sempre lugar marcado à mesa. Um destes dias perguntou-nos porque razão os brancos nunca comiam arroz… :D Nós fartamo-nos de rir e justificamos dizendo que, uma vez que almoçamos sempre arroz (porque vamos buscar à tal senegalesa), ao jantar tentamos fazer sempre outra coisa. Ele ficou muito espantado… para ele branco não comia arroz e a massa é que era comida de branco!
Esta ideia foi reforçada com outra história engraçada. O Miguel e o Cirilo tiveram de ir à aldeia SOS de Canchungo tratar de qualquer coisa. Como é longe e tínhamos a carrinha da FEC nessa semana, eles foram de carro e, à vinda, deram boleia a algumas das crianças que vinham ao centro da cidade. Um dos miúdos disse ao Miguel: “Titio, a mi misti ser o branco” (quero ser branco), ao que o Cirilo perguntou logo a seguir porque razão queria ele ser branco, qual era o mal de ser preto? A resposta do miúdo foi imprevisível: “A mi misti ser o branco pa ta kome spagueti”, ou seja, o miúdo queria ser branco para poder comer esparguete!... Podia invejar-nos o carro, a casa, o dinheiro… mas não… queria ser branco para poder comer esparguete! Sem comentários…
Um dos momentos altos da semana continua a ser a hora do desenho com as crianças da escola. É quase a única oportunidade que tive, até agora, de estar em contacto com crianças. Apesar de saber que o que estamos a fazer é importante e talvez seja o melhor modelo para atingir resultados mais abrangentes e cada vez mais sustentáveis – neste projecto, com os setenta e cinco professores que temos, só na região de Cacheu, estamos a conseguir atingir cerca de 3500 crianças – tenho de confessar que, por vezes, sinto a falta das aulas e dos alunos, do ambiente de uma sala. Tenho assistido, e vou assistir, a muitas sessões… mas não são minhas, nem posso intervir… e nisto sou um pouco egoísta! :D
O Natal foi-se aproximando quase sem darmos por isso, pelo menos exteriormente. Nada fazia lembrar o Natal – não há frio, não há lareiras, não há luzes nas ruas, não há correrias para comprar presentes, não há doces… Foi uma fase estranha…
Duas semanas antes chegou uma encomenda da minha família de Santo Tirso e alguns cartões de Natal… tão engraçado! Partilhamos com as nossas (muitas) visitas os doces tradicionais de Portugal e a partilha foi um sucesso. Com isso e com o bonito presépio que compramos e montamos em nossa casa, o clima ficou mais natalício.
Quando o Cirilo regressou de uns dias de férias, na semana anterior ao Natal, refizemos o presépio, uma vez que ele nos disse que a tradição na Guiné é a de colocar o presépio num canto. Com o seu toque artístico, ficou lindíssimo!
Para melhor conseguir o espírito natalício, coloquei música de Natal todas as noite no computador e cantarolei todo o dia… ao fim de uns dias nem o Miguel nem o Cirilo já me podiam aturar! :D
Na semana do Natal chegou outra encomenda, desta vez da mãe do Miguel. Tantos mimos… começamos a ficar mal habituados! :D (e sabemos que ainda receberemos mais duas nos primeiros dias de Janeiro)
Um dos momentos altos da minha semana foi a festa de Natal da missão católica aqui de Canchugo – as irmãs convidaram-nos a estar presentes e foi uma alegria. Mitigou um pouco as saudades das festas de Natal que ajudo a preparar quando estou por aí.
A festa foi muito participada, com as crianças a cantarem músicas de Natal e a representarem cenas da vida de Jesus, um exemplo universal de amor e entrega aos seus ideais.
O presépio, onde uma Maria negra, acompanhada por um José negro, embalava um Jesus Menino também negro, faz todo o sentido neste contexto onde a alegria e a felicidade no pouco são, de facto, uma realidade.
Em poucos dias, Bissau ficou despovoada de brancos… todos partem para passar o Natal com as famílias, nos seus países. Nós fomos ficando, sendo que cada ida ao aeroporto levar alguém era mais um momento difícil com o desejo de partir.
A véspera de Natal foi passada com outra colega da FEC que também ficou por cá – fomos jantar à casa Emanuel, uma casa de meninos abandonados. Foi engraçado, mas não ficamos muito tempo pois queríamos ir à missa do galo, que aqui é às 21.30!
Não são fáceis estes momentos de Natal – ficamos mais nostálgicos, sentimos falta dos nossos hábitos e das nossas tradições. Sobretudo sentimos falta dos nossos, daqueles com quem costumamos partilhar os momentos mais importantes da vida. Os telemóveis ajudam a diminuir as distâncias, mas não conseguem evitar que uma lágrima corra ao ouvir as vozes que nos faltam e nos sentem a falta… Por vezes é bom sentir a dor da separação, faz-nos perceber que estamos vivos e que criamos laços!
No final da missa regressmos à pensão e estivemos ainda um pouco na varanda… o calor puxava e olhar as estrelas faz bem à melancolia!
Apesar de poucas coisas externas o demonstrarem, o Menino também nasceu aqui na Guiné, colocando um sorriso nos lábios de toda a gente. Festa é sempre festa...
No dia 26 partimos para a ilha de Santiago, em Cabo Verde. O que contar sobre estes dias?
Umas férias fantásticas, e atrevo-me a dizer, bem merecidas – beleza natural lindíssima, calor, praias, luxos europeus (água nas torneiras, luz 24h/dia, estradas alcatroadas…). Alugamos um carro e visitamos toda a Ilha, que já está bem preparada para o turismo, a anos-luz da Guiné.
Dos locais a visitar, podemos salientar a cidade da Praia, construída junto ao mar, com umas vistas lindíssimas e um ambiente citadino muito cosmopolita; o Tarrafal, colónia penal do tempo do Estado Novo, que merece ser visitado sobretudo para não deixarmos esquecer (à imagem dos campos de concentração nazi); a Cidade Velha, primeira cidade construída pelos portugueses em África, considerada património mundial da humanidade, local com um espírito muito próprio e uma paisagem inesquecível; a praia de S. Francisco, completamente paradisíaca; e a vila de Pedra Badejo, onde acabamos por nos fixar durante alguns dias maravilhosos (iríamos para a ilha do Fogo mas o mau tempo do mar não permitiu que o barco partisse!).
Como em qualquer outro final de ano, estão a ser uns dias óptimos para fazermos o balanço do ano que termina, reflectirmos nos aspectos menos e mais positivos, agradecermos as conquistas, vencermos as derrotas e estabelecermos propósitos para o novo ano.
Agradecemos a todos os que nos acompanharam ao longo deste ano e desejamos que se mantenham por aí…
Vai ser um grande 2010! :D
No dia 5 de Dezembro a diocese de Bissau, à qual Canchungo pertence (a Guiné tem duas dioceses – Bissau e Bafatá), realizou a sua peregrinação anual a Cacheu, onde existe a que dizem ser a primeira igreja dos portugueses na costa ocidental africana. Foi um momento muito bonito com missa campal, cânticos, danças. Um momento de louvor e comunhão que me fez bem, uma vez que ainda não tinha tido oportunidade de participar em nada da igreja aqui (o trabalho ao fim-de-semana não ajuda neste ponto).
No final tive um encontro muito feliz com uma colega, leiga consagrada, que não via há mais de cinco anos e que conheci em Salamanca, num encontro ibérico de dehonianos. Nessa altura eu acabava de regressar de Moçambique, do primeiro ano, 2003, e pensava fazer da missão o resto da minha vida, e ela, missionária que tinha estado também no Gurúè, como eu, pensava com os seus setenta anos deixar-se de vez das aventuras africanas e ficar pelo Porto, numa casa de apoio a jovens estudantes. Éramos ambas representantes de “braços” da família dehoniana – eu dos leigos voluntários e ela dos leigos consagrados.
Cinco anos depois… quem diria que nos iríamos encontrar em Cacheu, na Guiné?! Parece que a vida trocou as voltas às duas… :D Eu, casada, apesar de continuar “em missão”; e ela, apesar dos seus setenta e cinco anos, na Guiné há quatro anos tendo vindo apenas substituir uma colega por três meses… As voltas da vida! Têm o seu interesse, não haja dúvida!
A nível de trabalho o mês ficou marcado pelo arranque dos acompanhamentos semanais aos formadores que vou coordenar e das formações aos professores. Foi um mês intenso que exigiu muita preparação minha e grande empenho do meu grupo de formadores. Até porque os imprevistos… Imaginem, tínhamos previstas seis sessões de formação – três de português e três de pedagogia – o que implicaria um grande trabalho de preparação dos formadores. Se bem se lembram, eu tenho um grupo de onze formadores que dá estas formações em cinco turmas diferentes, perfazendo setenta e cinco professores na região que coordeno, Cacheu. No início do mês de Dezembro, o ministério comunicou-nos que as nossas formações das férias do Natal teriam de ser adiadas pois a Unicef propôs-se ministrar formação também naquelas datas… e como a Unicef é a Unicef… lá tivemos nós de ceder. E abrandamos o ritmo da preparação, naturalmente… na semana anterior às férias, o ministério contacta-nos a dizer que afinal a Unicef não avança e temos de avançar nós! Foi um stress… Andamos nós a “pregar” a necessidade da planificação, da organização, e vem a Unicef e faz uma coisa destas! Ficamos mesmo furiosos! E lá tivemos nós que, numa semana, agarrar as formações de pedagogia (de Português acabamos por aceitar fazer apenas uma, a bem da qualidade), apenas possível devido ao empenho dos nossos formadores que passaram tardes inteiras lá no escritório a preparar tudo.
Para além da preparação das sessões de formação, também estou encarregue de tratar de toda a logística – marcar as salas nos diferentes locais, organizar os materiais da sessão para os setenta e cinco professores-formandos. Acreditem que dá o seu trabalho!
Por último, assisti às sessões de formação propriamente ditas pois o plano de acompanhamento e formação dos nossos formadores pressupõe que a supervisora assista a três sessões de cada formador no sentido de melhor os poder orientar. Foi a minha primeira experiência nesta função e digo-vos que, para mim é um sufoco! É a mesma sensação de quando vou assistir a um concerto e conheço as peças todas e só me apetece cantar também… :D Fiz um esforço muito grande para não intervir durante as sessões!
Em Janeiro começarei a assistir às aulas dos professores que estão a ser alvo das nossas formações. O projecto prevê que eu acompanhe vinte e cinco dos setenta e cinco professores-alvo assistindo a três das suas aulas. Em suma, de Janeiro a Junho não farei mais nada, durante as manhãs, a não ser ir às escolas assistir a aulas…
Durante uma das sessões de formação a que assisti, fiquei muito surpreendida com uma constatação – a maior parte dos professores que estão a fazer formação connosco nunca tinha visto um mapa da Guiné-Bissau. Que estranho! Sabem o nome das regiões de trás para a frente, mas não sabem apontar nenhuma no mapa… Se nunca o tinham visto… Como pensar a terra onde habitamos se nem conhecemos a forma que ela tem? Nem a sua relação com o resto do mundo? Não consigo imaginar como será…
O mais grave é que estamos a falar dos professores, e não dos alunos…
Mas como poderiam conhecer um mapa se as escolas não os têm? Se eles próprios aprenderam sem livros ou qualquer outro tipo de material?
Sei que já tenho alguns anos de experiência disto, mas acho que nunca irei deixar de me surpreender!
Neste sentido, a FEC tem um papel importantíssimo, uma vez que distribui um armário pedagógico a cada escola do projecto com mapas, cartazes, esqueletos, dicionários, gramáticas e outros materiais que poderão constituir uma mini-biblioteca (ou centro de recursos) para cada escola. E, não menos importante, nas nossas formações, ensinamos como usar cada um dos materiais para tirar proveito deles na sala de aula.
Um destes dias, quando andávamos lá por casa com os cinco mapas da Guiné para os nossos formadores levarem para as suas sessões, o Miguel teve uma experiência muito bonita e curiosa. O Miguel, como já vos disse, conquistou aqui a pequenada com as suas brincadeiras, a sua gargalhada, os seus rebuçados… Um dos seus mais fiéis amigos, é o pequeno Uyé, que terá cerca de seis anos e não fala uma palavra de português. Aliás, à minha frente, não fala uma palavra de língua nenhuma… Quando está sozinho com o Miguel desata a falar numa língua incompreensível, o que não os impede de terem grandes conversas. É fantásticos ouvi-los da janela do escritório – o Uyé com palavras estranhas e muitos gestos, e o Miguel num português meio acrioulado e também muitos gestos… e podem passar nisto um tempo infindável!
Pelo que pensamos, o Uyé será muçulmano e frequentará uma escola corânica, pelo menos é o que as suas vestes e linguagem deixam adivinhar. Tem um olhar tão doce…
Mas estou a afastar-me do que ia contar… numa das visitas do Uyé, o Miguel foi buscar um mapa da Guiné e mostrou-lho… haviam de ver o seu olhar espantado… o que terá ele percebido do que estava a ver? O Miguel apontava e dizia “Mapa di Guiné”, “Guiné”! Depois mostrou-lhe Canchungo, “aqui, aqui, Canchungo”! E o Uyé a tentar repetir, sem conseguir, o nome da sua terra… Foi mesmo um momento bonito, de descoberta e fascínio.
O curioso foi que ele, após inspeccionar o mapa todo o com o seu olhar atento, mal viu a bandeira da Guiné, no topo do mapa, apontou e disse “PAIGC”… Inacreditável!
Duas vezes inacreditável – uma, que a bandeira de um partido seja a bandeira do país, sobretudo num país pluripartidário e que se diz democrático; outra, que um miúdo que não fala nem português nem crioulo, que não sabe dizer o nome da terra onde mora, consiga olhar para um símbolo e o identifique com uma realidade política… Curioso, não?
Grande Uyé, que sem saber nos ensina algumas coisas…
Lembram-se de eu dizer que guineense só come arroz? Tivemos duas histórias engraçadas sobre isso. Uma passou-se com um rapaz, grande amigo da FEC já há alguns anos, que nos visita diariamente para consultar alguns livros, carregar o telemóvel, aproveitar da luz para estudar… É uma presença diária que também nos serve de auxílio – ajuda-nos a encher os bidões de água, toma conta da casa quando nos ausentamos, etc.
Como ele aparecia sempre no horário de jantar e nos parecia que ficava sem comer nada, começamos a convidá-lo para ficar e agora tem sempre lugar marcado à mesa. Um destes dias perguntou-nos porque razão os brancos nunca comiam arroz… :D Nós fartamo-nos de rir e justificamos dizendo que, uma vez que almoçamos sempre arroz (porque vamos buscar à tal senegalesa), ao jantar tentamos fazer sempre outra coisa. Ele ficou muito espantado… para ele branco não comia arroz e a massa é que era comida de branco!
Esta ideia foi reforçada com outra história engraçada. O Miguel e o Cirilo tiveram de ir à aldeia SOS de Canchungo tratar de qualquer coisa. Como é longe e tínhamos a carrinha da FEC nessa semana, eles foram de carro e, à vinda, deram boleia a algumas das crianças que vinham ao centro da cidade. Um dos miúdos disse ao Miguel: “Titio, a mi misti ser o branco” (quero ser branco), ao que o Cirilo perguntou logo a seguir porque razão queria ele ser branco, qual era o mal de ser preto? A resposta do miúdo foi imprevisível: “A mi misti ser o branco pa ta kome spagueti”, ou seja, o miúdo queria ser branco para poder comer esparguete!... Podia invejar-nos o carro, a casa, o dinheiro… mas não… queria ser branco para poder comer esparguete! Sem comentários…
Um dos momentos altos da semana continua a ser a hora do desenho com as crianças da escola. É quase a única oportunidade que tive, até agora, de estar em contacto com crianças. Apesar de saber que o que estamos a fazer é importante e talvez seja o melhor modelo para atingir resultados mais abrangentes e cada vez mais sustentáveis – neste projecto, com os setenta e cinco professores que temos, só na região de Cacheu, estamos a conseguir atingir cerca de 3500 crianças – tenho de confessar que, por vezes, sinto a falta das aulas e dos alunos, do ambiente de uma sala. Tenho assistido, e vou assistir, a muitas sessões… mas não são minhas, nem posso intervir… e nisto sou um pouco egoísta! :D
O Natal foi-se aproximando quase sem darmos por isso, pelo menos exteriormente. Nada fazia lembrar o Natal – não há frio, não há lareiras, não há luzes nas ruas, não há correrias para comprar presentes, não há doces… Foi uma fase estranha…
Duas semanas antes chegou uma encomenda da minha família de Santo Tirso e alguns cartões de Natal… tão engraçado! Partilhamos com as nossas (muitas) visitas os doces tradicionais de Portugal e a partilha foi um sucesso. Com isso e com o bonito presépio que compramos e montamos em nossa casa, o clima ficou mais natalício.
Quando o Cirilo regressou de uns dias de férias, na semana anterior ao Natal, refizemos o presépio, uma vez que ele nos disse que a tradição na Guiné é a de colocar o presépio num canto. Com o seu toque artístico, ficou lindíssimo!
Para melhor conseguir o espírito natalício, coloquei música de Natal todas as noite no computador e cantarolei todo o dia… ao fim de uns dias nem o Miguel nem o Cirilo já me podiam aturar! :D
Na semana do Natal chegou outra encomenda, desta vez da mãe do Miguel. Tantos mimos… começamos a ficar mal habituados! :D (e sabemos que ainda receberemos mais duas nos primeiros dias de Janeiro)
Um dos momentos altos da minha semana foi a festa de Natal da missão católica aqui de Canchugo – as irmãs convidaram-nos a estar presentes e foi uma alegria. Mitigou um pouco as saudades das festas de Natal que ajudo a preparar quando estou por aí.
A festa foi muito participada, com as crianças a cantarem músicas de Natal e a representarem cenas da vida de Jesus, um exemplo universal de amor e entrega aos seus ideais.
O presépio, onde uma Maria negra, acompanhada por um José negro, embalava um Jesus Menino também negro, faz todo o sentido neste contexto onde a alegria e a felicidade no pouco são, de facto, uma realidade.
Em poucos dias, Bissau ficou despovoada de brancos… todos partem para passar o Natal com as famílias, nos seus países. Nós fomos ficando, sendo que cada ida ao aeroporto levar alguém era mais um momento difícil com o desejo de partir.
A véspera de Natal foi passada com outra colega da FEC que também ficou por cá – fomos jantar à casa Emanuel, uma casa de meninos abandonados. Foi engraçado, mas não ficamos muito tempo pois queríamos ir à missa do galo, que aqui é às 21.30!
Não são fáceis estes momentos de Natal – ficamos mais nostálgicos, sentimos falta dos nossos hábitos e das nossas tradições. Sobretudo sentimos falta dos nossos, daqueles com quem costumamos partilhar os momentos mais importantes da vida. Os telemóveis ajudam a diminuir as distâncias, mas não conseguem evitar que uma lágrima corra ao ouvir as vozes que nos faltam e nos sentem a falta… Por vezes é bom sentir a dor da separação, faz-nos perceber que estamos vivos e que criamos laços!
No final da missa regressmos à pensão e estivemos ainda um pouco na varanda… o calor puxava e olhar as estrelas faz bem à melancolia!
Apesar de poucas coisas externas o demonstrarem, o Menino também nasceu aqui na Guiné, colocando um sorriso nos lábios de toda a gente. Festa é sempre festa...
No dia 26 partimos para a ilha de Santiago, em Cabo Verde. O que contar sobre estes dias?
Umas férias fantásticas, e atrevo-me a dizer, bem merecidas – beleza natural lindíssima, calor, praias, luxos europeus (água nas torneiras, luz 24h/dia, estradas alcatroadas…). Alugamos um carro e visitamos toda a Ilha, que já está bem preparada para o turismo, a anos-luz da Guiné.
Dos locais a visitar, podemos salientar a cidade da Praia, construída junto ao mar, com umas vistas lindíssimas e um ambiente citadino muito cosmopolita; o Tarrafal, colónia penal do tempo do Estado Novo, que merece ser visitado sobretudo para não deixarmos esquecer (à imagem dos campos de concentração nazi); a Cidade Velha, primeira cidade construída pelos portugueses em África, considerada património mundial da humanidade, local com um espírito muito próprio e uma paisagem inesquecível; a praia de S. Francisco, completamente paradisíaca; e a vila de Pedra Badejo, onde acabamos por nos fixar durante alguns dias maravilhosos (iríamos para a ilha do Fogo mas o mau tempo do mar não permitiu que o barco partisse!).
Como em qualquer outro final de ano, estão a ser uns dias óptimos para fazermos o balanço do ano que termina, reflectirmos nos aspectos menos e mais positivos, agradecermos as conquistas, vencermos as derrotas e estabelecermos propósitos para o novo ano.
Agradecemos a todos os que nos acompanharam ao longo deste ano e desejamos que se mantenham por aí…
Vai ser um grande 2010! :D
26/12/09
14/12/09
um Natal diferente
Queridos amigos:
É Natal... um Natal diferente, um Natal sem as características que identificamos como natalícias... mas nem por isso deixa de ser Natal, no sentido da oportunidade de ReNascimento para cada um, da Esperança que pode inundar, mais uma vez, a nossa vida, do Amor que torna tudo possível!
Esse Natal também é sentido por aqui...
Ainda sem planos concretos, pensamos passar a noite de natal numa aldeia SOS, com crianças órfãs e abandonadas. Uma vez que não a poderemos passar com os "nossos", tentaremos ser "nossos" para quem não tem mais ninguém.
Um abraço apertado de saudades, mais nostálgico do que é normal... porque é Natal!
Sá e Miguel
Natal Africano
Não há pinheiros nem há neve
Nada do que é convencional
Nada do que se escreve
Ou que se diz... Mas é Natal.
Que ar abafado! A chuva banha
A terra norma e vertical
Plantas da flora mais estranha
Aves da fauna tropical.
Nem luz, nem cores, nem lembranças
Da hora única e imortal
Somente o riso das crianças
Que em toda a parte é igual.
Não há pastores nem ovelhas
Nada do que é tradicional
As orações, porém, são velhas
E a noite é Noite de Natal!
(de Cabral do Nascimento, Obra Poética)
05/12/09
3 de Dezembro de 2009
Passou um mês… não a voar, mas a ritmo acelerado, disso não há dúvida!
Como balanço, podemos assinalar que são mais as coisas boas que as más – a falta da água e a necessidade de uma pinturinha na casa poderão ser mesmo marcados como os pontos mais negativos… claro que ao nível do trabalho temos às vezes uns stresses devido a tudo ser bastante novo, mas, isso seria normal em qualquer trabalho novo em qualquer parte do mundo! Também é verdade que as saudades vão apertando, o Natal aproxima-se… sentimos falta de alguns luxinhos mas… nada que não se resolva de forma mais ou menos criativa!
Dou um exemplo, em Canchungo há apenas dois ou três locais onde se pode comer fora – o sr. Rui, um cabo verdiano, que tem sempre peixe grelhado, uma senegalesa onde se come todos os dias Txep (arroz com peixe ou carne) e a dona Maria (outra cabo verdiana). Como este último é caro (para o nível de vida cá), só lá fomos uma vez, em dia de festa! Ao sr. Rui vamos um almoço por semana, para apreciar o belo do peixe grelhado. Os outros almoços vamos buscar à Senegalesa, onde comemos os três por 1,5 Euros… Bem, mas perdi-me na conversa. O que eu queria dizer é que mesmo nestes sítios não há sobremesa, pois não é hábito de cá. Durante algum tempo só comemos bananas mas quando o desejo de um doce apertou muito, lá puxamos da criatividade e conseguimos descobrir num Nar (loja) daqui um carregamento de leite condensado!! Ficamos maravilhados! Agora temos sempre uma lata de reserva em casa e quando nos dá aquele sentimento de vazio, só preenchido por uma coisinha doce (sabem como é, não sabem?) lá fazemos uma salada de banana bem regada e ficamos logo outros! :D
Claro que em Bissau é muito diferente – há vários locais onde comer bem e com direito a sobremesa e tudo! Já fiz a maravilha de ir jantar a um sítio barato, também senegalês, e depois ir a um desse sítios mais finórios comer só a sobremesa! :D Há coragem para tudo, quando toca à gula! Como lá diz o ditado popular sobre os pecados capitais, “contra a gula… paciência”! :D
Mas como estava a dizer, o mês fechou em alta! E isso é o mais importante. É o que nos mantém por cá!
Foi óptimo ler os primeiros comentários ao nosso blog! Obrigados a quem os fez! Estamos cá porque acreditamos no que estamos a fazer, acreditamos que podemos fazer um pouquinho de diferença e porque tornando a nossa vida mais útil também nos sentimos muito mais felizes. Puro egoísmo, no fundo!
Mas continuem a escrever no blog, ou para o mail, porque quando temos net é óptimo percebermos que “quem desaparece” não é esquecido e que continuamos nos vossos corações. Foi por isso que decidimos fazer este blog, para que possam continuar a participar da nossa vida, como se estivéssemos aí e nos juntássemos nalguma esplanada (ou diante de alguma lareira, talvez mais adequado), ao fim do dia, a responder ao costumeiro convite (mas nem por isso de menor valor) “mas então, conta lá o que tens feito!”.
A semana passada acabamos as visitas exploratórias às escolas. Agora, eu voltarei em Janeiro quando começar a observar aulas dos professores-alvo do nosso projecto. O Miguel voltará só no final do ano pois andará entretido com outros afazeres no entretanto.
O fim-de-semana foi passado em Bissau onde terminamos a formação inicial dos formadores guineenses que darão a formação da parte da FEC. Foi uma experiência muito rica, de grande troca de vivências. Alguns destes formadores dão aulas desde o tempo colonial… custa-me sempre ouvir como recordam o tempo “dos portugueses” como um tempo de maior riqueza e bem-estar. Tento sempre fazer crítica de fonte – estarão a dizer-me o que acham que eu quero ouvir? Serão estes uma elite que foi educada pelo sistema e que portanto o defende?... tantas questões… Um deles disse-me claramente que gostava dos portugueses porque pôde estudar com eles, aprender bom português, e com isso ter podido ser professor e sustentar-se. Contou que, como foi durante muito tempo o único a falar português na sua tabanca, os portugueses do exército o chamavam para ele servir de intérprete com os homens e mulheres grandes, quando queriam negociar mantimentos ou assim. Diz que sempre lhe davam uma moeda de 50 cêntimos por ele ser o tradutor! Contou ainda que se percebia que os soldados não estavam cá por vontade – havia sempre festa quando um regimento regressava a casa, e esta era sempre partilhada com a tabanca! Alguns devem conhecer melhor o nosso hino do que muitos portugueses! Tempos que marcaram, certamente, mas não tanto como as guerras internas pelo poder!
Esta semana já tivemos reuniões cá no escritório para a preparação das primeiras sessões de formação, a terem lugar no próximo fim-de-semana. Vamos a ver como corre! Eu irei a todas as sessões dar um saltinho e ver se tudo rola (teremos cinco sessões simultâneas, em três localidades da região. Passarei o dia a correr entre viagens…).
No sábado passado foi feriado na Guiné, o tabaski, e com ele uma série de histórias engraçadas! A primeira prende-se com o facto de o calendário muçulmano ser lunar, portanto, dependente da lua… Assim, estivemos quase duas semanas à espera de saber o dia do feriado e ninguém nos sabia dizer pois este acontece no dia em que a “lua sair” e isso… só se podia saber no próprio dia!! Imaginem o que isso significa em termos de planificação! E teve de calhar logo no sábado, dia em que tínhamos formação dos nossos formadores! Como parte dos nossos formadores é muçulmana… lá tivemos de mudar as datas da formação, e em cima da hora, pois não sabíamos bem quando seria o feriado! E ficamos nós zangadas com a lua! :D
O tabaski é uma festa religiosa em que é celebrada a cena do Abraão e do seu filho, quando Deus testa a fé de Abraão pedindo-lhe a vida do filho. Curioso como o antigo testamento une as três grandes religiões do mundo… e depois andamos a matar-nos o resto de toda a História! O ser humano é algo de estranho!
O Miguel, sempre muito bem relacionado, conseguiu ser convidado a assistir a uma festa do tabaski numa tabanca de Bafatá. Sortudo! Nós, mulheres, claro que não pudemos assistir. Ele há-de escrever umas linhas sobre o assunto, mas eu, que vi as fotos, até fiquei contente por não ter ido… é que eles matam mesmo alguns animais para recordar o sacrifício do cordeiro e o próprio Miguel diz que passava bem sem essa parte meia sanguinária. Mas tiraram fotos lindíssimas da cerimónia tradicional!
Apesar da sua participação, ficou bem claro que eles eram “estrangeiros” – tiveram de ficar atrás das mulheres (que humilhação!) e quando foi a hora da cerimónia na mesquita eles foram convidados a ir brincar com as crianças!! Eheheh!
Um dia destes demos por nós a pensar na “confusão tecnológica” que por aqui vai. Se por um lado é verdade que a Guiné não consegue ter um sistema de electricidade e de água canalizada, por outro, tem um sistema de comunicações móveis ao equivalente de qualquer país europeu. Aliás, a preços bem mais apetecíveis! Aqui, todos os professores com quem contactamos têm telemóvel… Não parece estranho? O nosso também é móvel, aliás. Canchungo quase não tem sistema de telefones fixos, passando directamente do nada para o telemóvel. O que não deixa de ser engraçado numa cidade sem electricidade – já pensaram como se processa a carga da bateria?? Pois… nós sabemo-lo bem pois temos sempre gente a bater-nos à porta do escritório para, nas horas em que há luz, carregarmos telemóveis… até já temos uma extensão só para o efeito! A verdade é que eles lá se arranjam, ainda que passando, por vezes, vários dias sem carga!
Esta “confusão” verifica-se a todos os níveis! Numa das escolas que visitamos, percebemos a existência de uma sala de informática. Curiosos, pedimos para ver. Era uma sala cheia de grandes mamarrachos europeus, atulhada de pó… e claro que vimos o filme todo! A associação dos filhos da tabanca, emigrados num qualquer país europeu, tiveram a boa vontade de enviar PCs para a escola dos seus familiares, mas foi esquecido o pormenor da electricidade! Soubemos, no entanto, que a associação está em negociações para instalar painéis solares na escola a fim de alimentar a sala… é demais, não é? Formas de vida quase primitivas de braço dado com a tecnologia de ponta ocidental!
A propósito disto, uma colega que esteve cá já no ano passado contou-nos uma história fantástica – ela conseguiu assistir a uma cerimónia tradicional e ficou toda contente. Algo muito étnico, com pinturas corporais, adereços da etnia, cantos e danças muito tradicionais… quando ela repara num rapaz que ao dançar emitia luz… com uma bela sapatilha moderna daquelas que tem luzinhas nos calcanhares! :D E claro que um ou outro da tabanca já tirava fotos com o seu telemóvel! África no seu melhor!
Esta semana, vimos, pela primeira vez, a grande feira semanal de Canchungo, quando fomos apanhar a sete places para Bissau. Enorme, cheia de cor, de gente, de sons e cheiros fortes. Vemo-la sempre de passagem, nunca calha num dia em que estejamos por casa ou pelo escritório(… ou seremos nós que andamos sempre por fora?). Tiramos muitas fotos, é digna de ser vista!
Ainda não tínhamos percebido a razão pela qual a feira nunca calhava no mesmo dia da semana nem o critério que o determinava. Disseram-nos que era sempre no dia da semana anterior ao da feira da presente semana – explicando, se esta semana a feira aconteceu à terça, na próxima semana será à segunda. Perguntando a razão de ser desta estranheza, ninguém nos soube explicar. Um dia destes, comentando este facto com outra pessoa, chegamos à conclusão de que assim era porque na contagem do tempo manjaca (etnia principal desta zona) a semana só tem seis dias!.. Portanto, para eles, é sempre no mesmo dia! Fantástico, não? É impossível não nos surpreendemos com estas coisas! Na vida escolar e religiosa, cederam ao calendário europeu, mas na sua regulação quotidiana mantêm a tradição popular. Foi mesmo uma descoberta interessante!
Outro fenómeno engraçado por aqui é o dos transportes – como uma amiga nossa costuma dizer, ainda é dos poucos serviços que vai funcionando por aqui.
Já vos falei das sete places – carrinhas tipo passat, com sete lugares (excluindo condutor), mala reduzidíssima (onde acham que foram colocar os três lugares extra?), mas que têm a vantagem de ter preço fixo (= nós, brancos, não somos enganados) e lugar marcado. Ou seja, vamos para a paragem onde as sete places se organizam tipo táxi, por ordem de chegada, e compramos um bilhete numerado de um a sete. Um único senão… só parte quando a sete places encher, o que pode demorar bem umas horitas! Amanhã de manhã, por exemplo, terei de estar em Bissau às nove da manhã e não pude ir hoje porque trabalhei até as sete da noite, portanto… amanhã só me resta ir para a paragem, por volta das sete da manhã, e rezar para que ela encha antes das oito para eu me pôr em Bissau a tempo da reunião! :D
Mas há outras opções – existem as candongas, carrinhas tipo Hiace, que enchem até rebentar. Estas têm uma particularidade engraçada – para além de podermos levar tudo em cima do tejadilho (animais vivos e tudo), se formos ao colo de alguém só pagamos meio bilhete! E esta, hein? Bem topado! :D Ainda não tive o prazer de entrar nesta aventura radical!
Já alguém se tinha perguntado para onde vão os autocarros dos STCP depois de “morrerem”?? Pois fiquem a saber que o cemitério dos STCP é mesmo aqui, na Guiné!! Devem andar aí uns cinco a fazer a linha Canchungo/Bissau! Ainda não lhes consegui tirar uma fotografia mas esta fica prometida! Imaginem a minha cara quando vi um autocarro dos STCP a passar nas ruas de Canchungo… desatei a rir, e confesso que quase me comovi! Só me contive porque uma série de gente parou a olhar para mim… devem ter pensado “branco é mesmo estranho… nunca deve ter visto um autocarro lá na terra di branco!!” :D Também nunca experimentei mas disseram-me que demora cerca de três horas a chegar a Bissau… Sendo que de sete places fazemos numa hora…
Em Bissau há candongas, mas só até à cidade, não vão até ao centro, então, o melhor é mesmo o serviço de táxis, muito sui generis. Andam sempre pela cidade, pintados de azul e branco, e é só fazer sinal para parar e perguntar se vão para onde queremos. Quanto mais gente for no táxi, mais barato ele fica. E há preços mais ou menos estipulados. Claro que no início fui enganada, mas agora não entro num táxi sem negociar primeiro, num crioulo muito arranhado. Um dia destes, já estafada depois de três dias de oito horas de formação intensas, com um calor insuportável e morta por regressar a casa, em Canchungo, um taxista pediu-me mil francos para me levar do centro da cidade à paragem das sete places! Passei-me…mil francos pago eu de Bissau a Canchungo em sete places!! Furiosa por mais uma vez “ser tratada como branca”, e inventando umas palavras em crioulo, disparei: “A mi ka turista. N’ta trabadja lá na Canchungo. N’ta ki pa djuda. A mi ka paga dimás”… Bem, o que eu quis dizer foi que não era turista, que trabalhava em Canchungo e que estava cá para ajudar a Guiné, não ia pagar a mais, preço de branco. Explodi, literalmente! Mas a verdade é que ele ficou tão surpreendido quanto eu e, depois de uns segundos, desatamos os dois a rir, a rir… e lá me fez o preço justo! Conversamos o resto do caminho todo em francês (não falava português mas francês sim… terra estranha!) e ainda me ajudou a encontrar uma sete places, pois já era tarde e ele ficou com medo que já não partisse nenhuma e eu ficasse para ali sozinha. Guineense é simpático por natureza!
Por falar em transportes… esta semana aconteceu outra situação! A cooperação portuguesa, através do IPAD, está a iniciar observações para ver a viabilidade de instalar painéis solares em algumas escolas do nosso projecto. Veio, portanto, um representante de um ministério português, cá a Canchungo, visitar uma das nossas escolas. O Miguel, representante da FEC na região, fez as honras da casa, e o Cirilo também os acompanhou, pois é sempre uma aproximação da FEC à comunidade (para além de ser intérprete quando necessário). Eu, pouco dada à vida mais social (quem me conhece não se admira), decidi ficar no escritório e corrigir mais uns trabalhos que tinha em atraso. Pois foi providencial! Ao fim da tarde, liga o Miguel a dizer que tinham ficado no meio do caminho no regresso da escola, a pedir para eu arranjar transporte e um electricista e ir buscá-los! O jeep da cooperação portuguesa! Nem queria acreditar! Lá fui eu, sem saber por onde começar. Em breve cairia a noite, e quase ninguém se atreve a viajar no mato, com estradas de terra batida e lagos ainda do tempo das chuvas… Os padres não estavam, a escola já fechada… por sorte um professor da escola ouviu-me a pedir ajuda e entrou em contacto com um electricista que conhecia. Arranjou também uma candonga para irmos. Foi uma cena de filme! A carrinha não tinha vidro da frente e os bancos estavam despregados do chão… foi uma risota o caminho todo!! Fiquei toda suja com a poeira que entrava… mas, pelo menos era bem ventilada e não tinha mau cheiro!! Eheheheh!
O Miguel, quando nos viu chegar, nem queria acreditar. O senhor do ministério não saía do carro por causa dos mosquitos, o representante da embaixada portuguesa só ligava para Bissau, de onde prometeram enviar um carro… Já era noite cerrada… felizmente havia luar! :D Depois do carro arranjado, o Miguel e o Cirilo preferiram voltar na carrinha a apanhar o fresco! Quanto nos rimos! This is Africa! Ah! E sabem o que aconteceu ao carro de salvamento que enviaram de Bissau? Rompeu o tubo do óleo e, como era já de noite, não conseguiram compor a pernoitaram no caminho. Quanto não valem as boas relações com a comunidade local… em caso de aflição não é Bissau que salva ninguém!!
Eu fiquei toda orgulhosa! Não é todos os dias que se tem oportunidade de ir salvar o marido e uns quantos caras pálidas ao meio do mato! :D Sorte tiveram os outros por o Miguel também lá estar!
E foi mais uma aventura cá no mato! Depois deste ano aqui, penso que ainda poderemos aguentar mais uns anos sem televisão em Portugal… teremos muitas histórias para recordar! :D
Um abraço apertado,
la salete e miguel
02/12/09
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