18/05/10
01/05/10
Os diferentes conceitos de casa...
Gosto sempre de dizer que não consigo ver estas duas minhas vidas numa mesma linha recta mas sim em duas linhas paralelas, em dois tempos e espaços diferentes, em duas dimensões distintas. Penso que não é possível levantar voo em Lisboa e aterrar em Bissau, sem sofrer um choque que vai muito para além de tempos e espaços. Não quer dizer que se não goste, é apenas a constatação de um facto!
Estou no jardim da nossa casa em Bissau, um calor magnífico, árvores e flores bonitas, uma mesa de esplanada… luxos a que eu não estava habituada, mas que me surgem, ao fim-de-semana, como uma bênção para o corpo e para a alma. A água corre da torneira e a luz, apesar de intermitente, permite-nos ter iluminação, carregar telemóveis e computadores e ter um frigorífico eléctrico. Mas o melhor é mesmo o estar com o Miguel.
Volto atrás. Os dias passados em Portugal foram óptimos para sentir o calor da família, dos amigos e de todos os outros por quem fomos passando e que, mesmo sem sentirmos muito, fomos marcando de uma forma ou de outra. Apesar do sentimento de cansaço por não podermos parar um minuto entre as visitas, os lanches e jantares, é uma riqueza apercebermo-nos do quanto temos à nossa espera no outro canto do mundo.
Estranho, nunca tinha ido de férias a Portugal!
Apesar de uma ou outra discussão mais intensa, normal porque estas já são, de facto, as “nossas causas”, não foi difícil sentir-me compreendida. Sinto que o que não é fácil, é explicar o que de facto vivemos e sentimos, se vive e se sente por aqui. Há experiências que não se descrevem… talvez todas as experiências muito marcantes e muito interiores não se possam descrever. Por isso gostava que viessem e vissem, e tocassem, e ouvissem, e experimentassem e sentissem. É algo muito nosso que, por mais esforço que façamos, não se consegue contar.
Foram dias muito felizes, entre abraços, perguntas e novidades mútuas. Foram dias felizes e agradeço-vos por isso.
O Miguel voltou mais cedo, como sabem, devido aos novos compromissos profissionais, e foi quase directamente para as Ilhas, onde a Tiniguena tem muitos projectos e ele foi inteirar-se da realidade. Foi de canoa, apanhou tempestade no mar e chegou todo encharcado depois da canoa meter água por todos os lados (porque é que estas coisas emocionantes só acontecem a ele, que não gosta nada destas coisas, e não a mim, que iria ficar toda emocionada???)… Os dias lá foram magníficos, segundo o que ele conta. Uma vivência muito perto das populações, a comer mangas e cajus de árvores que, de tão carregadas, deixam cair os seus frutos, a participar em cerimónias tradicionais, etc. Está todo contente com as suas novas funções.
Quem sentiu muito a diferença fui eu. Como eu já dizia, aterrar em Bissau é sempre um murro no estômago. Dormir numa casa, alugada por nós, mas a qual nunca tinha visto, que ainda não me é nada. Volto a Canchungo, a minha CASA, mas também essa está mudada, sem a presença sorridente do Miguel a iluminar os cantos da casa, a fazer parecer pouco importante a falta de água, a falta da luz… Que pieguice, bem o sei, mas confesso que me custou aquela primeira semana por cá. Para mais, o trabalho todo atrasado, formação para dar no sábado e todo o material para preparar… o Miguel sem rede para me ligar, e quando o conseguia era sempre aos soluços, mal dava para falar… E fizemos quatro anos de casamento no meio desta confusão! :D
O que valeu foi a presença do Cirilo e da Catarina que, como família que somos, de tudo fizeram para que eu não me sentisse triste. Até foram "jantar fora" comigo no dia do aniversário! :D
Na segunda feira, 26, ele chegou das Ilhas, voou para Canchungo, e tudo voltou ao normal! Cheguei, chegamos (sim, porque ele tinha sentido o mesmo que eu), finalmente, a CASA!
Por aqui… tudo normal, como na Guiné! Ou seja, a instabilidade política mantém-se. Fala-se de nova confusão para breve – ainda não há chefe de estado-maior das forças armadas (cemfa), o mais provável é que seja um dos revoltosos, o que a comunidade internacional não aceita. Mas é quem detém o poder dos militares. Fala-se num provável atentado ao primeiro-ministro. A verdade é que quando o presidente viajou, com o vice-cemfa, na semana passada, numa visita oficial à Líbia, o primeiro-ministro também viajou para a Europa, de urgência, dizem que percebendo que seria a altura ideal para sofrer um atentado. No fim-de-semana passado houve qualquer coisa. Ninguém sabe bem o quê, mas esteve para acontecer algo, pois todos falam nisso. E ninguém sabe nada! É fantástico! E nós temos de aprender a viver desta forma, é a única solução. Portanto, não se admirem se a Guiné-Bissau aparecer nas notícias, em breve, por motivos menos agradáveis!
O calor chegou a valer… Dificulta o adormecer e põe-nos o suor a correr no corpo, que fica com um cheiro intensíssimo. Tudo tem um cheiro intenso nesta terra!
De vez em quando já se sente um vento a querer puxar a chuva, eu já a sinto no ar, mas todos me gozam, dizendo que ela só virá no final do mês. O calor faz-me desejar que chegue mais cedo, para refrescar casas e corpos! Sei que depois a Guiné ficará intransitável e todos ficaremos mais ou menos reféns do lugar onde estamos mas a lembrança da chuva a bater nos telhados, do cheiro que a terra liberta, do coaxar dos sapos toda a noite, do banho tomado à chuva … Uhmmm! Que venha, que venha depressa!...
Com esta época quente veio também a época da manga, do caju e do ananás. É fantástico o que se aprende aqui sobre a natureza. Como não temos os “frescos do Pingo Doce”, acabamos por perceber as “épocas” das coisas, os ciclos. A paisagem ficou linda, linda. Como grande parte das árvores são mangueiras e cajueiros, é lindíssimo viajar e ver as árvores pintadas com o amarelo e laranja das mangas, penduradas de forma mágica, e o vermelho vivo dos cajus, quase lembrando cerejas. Pela primeira vez comi caju. Em Moçambique já tinha aprendido (ai esta ignorância!) que o caju que nós conhecemos em Portugal não é exactamente o fruto do cajueiro. O cajueiro tem um fruto vermelho vivo, muito doce e com uma textura estranha, que é o caju (a mim faz-me lembrar o diospiro), e que, na ponta, tem um rabinho, como se fosse um feijão. Aí dentro é que está a castanha de caju, muito apreciada na Europa, e que, depois de torrada, se come, que é o que nós conhecemos como caju. Como eu dizia, já tinha aprendido isto em Moçambique, mas nunca tinha tido a oportunidade de comer o caju, que, a dizer a verdade, ainda não me convenceu muito mas… vou dar-lhe uma segunda oportunidade!
Para a Guiné, esta é uma época única no ano, visto que o caju representa cerca de 90% da exportação do país, o que significa que é quase a única altura em que a maioria das pessoas das tabancas sabe o que é o dinheiro, é a única cultura de renda para a GB. Explico-me. Nesta época, o governo decreta a abertura da campanha do caju, e o sistema já está montado com uma série de empresas a comprar o produto em bruto e a fixar o preço do quilo (que este ano está em cerca de 200francos cfa – 30 cêntimos). Assim, todos estão a proceder à apanha do caju de forma a poder receber algum dinheiro, para alguns, o único que recebem todo o ano.
Este facto tem uma grande implicação nas escolas já que muitos pais não deixam os filhos irem às escolas durante o período da campanha de caju para que estes possam ir ajudar na sua apanha, o que faz com que muitas escolas tenham uma taxa de absentismo elevadíssima nesta altura e que os alunos percam cerca de um mês de aulas!
Algumas escolas, para poderem ter algum dinheiro para as suas despesas, oferecem as suas turmas para irem apanhar caju em grandes propriedades, a que chamam o dia de “trabalho produtivo”. Iniciativas que a nós nos parecem bizarras, mas que parecem fazer todo o sentido neste tipo de economia em que as escolas estão por sua conta, já que o estado não consegue dar-lhes nenhum tipo de financiamento.
Um dia destes queixava-me, em casa, que não encontrava caju à venda no mercado, o que não me parecia fazer sentido com tanto que eu via a cair pelas estradas das tabancas. O Almeida, rindo-se, disse-me “é exactamente por isso, por toda a gente ter tanto caju que não vale a pena pôr à venda que ninguém compraria”. Boa questão! Nunca tinha pensado assim. “E para os brancos, que não têm ponta (terreno de cultivo), porque não vendem?” “Porque em Canchungo não há brancos que justifiquem!” Ok, percebi! Mas ele prometeu-me que me iria trazer muitos quando fosse à ponta dele.
Ao nível do trabalho, para além do imenso trabalho burocrático (relatórios de observação de aulas, introduzir valores de provas em grelhas estatísticas, etc) e da preparação das sessões de formação com os meus formadores, continuo a segunda ronda da visita às escolas para observar as aulas. Esta semana estive numa escola que parecia o paraíso – feita de traves e folha de palmeiras, no meio dos cajueiros e mangueiras, com o som do vento a agitar as árvores, o cantar das aves e vozes de tantos animais (vacas, cabras, porcos…)… mesmo, mesmo paradisíaco! O pior foi mesmo o facto de ter de me sentar num pau com cerca de 10 centímetros de largura onde, como podem imaginar, eu não cabia nem metade, durante cerca de duas horas. Se já para os miúdos não é confortável, imaginem para mim, que ocupo um espaço considerável! O melhor momento foi mesmo quando todos se levantaram para cantar o hino nacional e eu pude levantar-me e descansar um pouco. :D O mundo não é mesmo perfeito, mas acho que se me tivessem deixado sentar no chão, eu me teria sentido bem perto da perfeição naquele momento!
E termino com um acontecimento muito, mas muito caricato: no sábado passado eu tive formação toda a manhã, das 8 às 14h. Cheguei a casa, comi qualquer coisa e fui deitar-me na cama, deixando a porta da casa aberta, apenas fechada no mosquiteiro, pois esperava que os meus formadores regressassem todos das respectivas formações para me trazerem o material, fazermos contas, etc, e me chamassem da porta de entrada. Não imaginam o susto que apanhei quando acordei com uma pequena chimpanzé a pular em cima da minha cama, na qual eu estava deitada a dormir! Pois… é mesmo verdade! Acordei com a Helga a saltar para cima da minha cama!
A Helga é uma chimpanzé que uns chineses “adoptaram” mas que, como fazia muitas asneiras e era muito traquina, a ofereceram ao seu funcionário guineense, que a deixa vaguear um pouco pelas ruas de Canchungo. Já não é a primeira vez que ela tenta entrar em nossa casa. Já de outras vezes eu ouvi mexer no trinco do mosquiteiro e vindo ver quem era dou de caras com a Helga. Desta vez ela conseguiu forçar mesmo o trinco e entrar em casa indo directa ao meu quarto, que estava com a porta aberta para ouvir os formadores a chamarem por mim. Subindo para a cama, desata aos pulos, que me acordaram, dando eu um pulo para fora da cama. Fiquei em pânico! Penso que todos conhecem a minha relação difícil com os animais… não gosto de muitas intimidades! Pois tive de a ver a saltar em cima da minha cama, qual criança animada, da cama para a cadeira, da cadeira para a cabeceira da cama, da cabeceira atirar-se, com uma cambalhota no ar, para a cama, novamente, pendurar-se nos batiks que eu tenho colados na parede, fazendo com que se descolassem (depois de tanto trabalho!), brincasse com as almofadas… Bem, depois de um momento de pânico, veio aquele em que olhei para todo o lado à procura da câmara para os “apanhados” ou de alguém que me estivesse a pregar uma partida… e depois o momento de me desatar a rir à gargalhada e me divertir com as piruetas da macaquita! Comecei, depois de me recompor, o processo de a devolver à rua. Foi lento e árduo! Ela não queria ir de tão divertida que estava a saltar em cima da minha cama… ria-se como uma criança! Lá comecei a tentar empurrá-la com a minha mão para que ela saísse do quarto, mas ela devia perceber um novo impulso pois dava mais uma cambalhota e não saía. Começo a falar então com ela, perguntando-lhe se ela falava português ou crioulo! :D Acho que endoideci um bocado, reconheço, mas como ela não queria ir a mal, pensei que conversando me safasse! Fui à rua procurar alguém que me ajudasse mas como era a hora de maior calor, não se via ninguém. Voltei para dentro e com uma atitude de perseguição cerrada, muitos argumentos em crioulo, e a atracção de uma banana (genial, hein?), lá consegui que ela deixasse o meu quarto indo enfiar-se no escritório. Bem, pelo menos estava mais perto da porta. Novas tentativas de a pôr na rua mas ela novamente atraída pelo balanço das cortinas do escritório, onde se pendurou, por subir e descer a pasta da minha guitarra… entretanto veio alguém que me ajudou a tentar tirá-la e conseguimos trazê-la para a entrada da casa, mas ela agarrou-se a uma perna da mesa da entrada e começou a chorar… incrível, parecia mesmo uma criança! Quase me comovi! O rapaz também e foi-se embora, dizendo que ela não queria mesmo deixar a casa! Fiquei possessa… não queria ela mas queria eu que ela saísse! Olha que esta! Usei novamente a técnica da banana e consegui que ela saísse para o terraço, finalmente! Mas não é que ela ficou o resto da tarde à porta de casa a choramingar, com o dedo na boca? Poça! Que coisa me havia de acontecer! E a cena só acabou por volta das cinco da tarde quando chegou um dos meus formadores e vendo-a ali a carpir a levou ao dono, ralhando com ele por não a manter na linha! Pobre Helga! E pobre de mim que tive de deitar toda a roupa que tinha no quarto para lavar e na qual ela se andou a esfregar e a pendurar. Ainda hoje acho que o meu quarto ficou com cheiro a chimpanzé, mas deve ser sugestão! :D
E bem, até ao meu regresso a Bissau!
Abraço e fiquem bem!
sá
13/04/10
Uma crónica esperançosa
12/04/10
O merecido descanso em Portugal!
O Miguel já está quase de regresso (obrigações de coordenador!) e eu ficarei mais uns dias, não muitos.
Do que mais estamos a gostar? Do chuveiro de água quente!! Viva a modernidade! :D
O que mais nos prende cá? A família, amigos e a cidade do Porto.
Se já temos saudades da Guiné? Sim, a nossa vida, neste momento, já é lá, sem dúvida!
Um abraço e até...
Sá
01/04/10
Tudo normal... como na Guiné!
Parece coisa do dia das mentiras... bem o desejamos! Mas não, a Guiné voltou a ter problemas devido aos militares!
Só queria dizer que estamos bem, a respeitar o recolher obrigatório no bairro da cooperação portuguesa, em segurança.
Desejamos que o aeroporto não seja tomado e possamos viajar, como tínhamos planeado, para Portugal amanhã à noite. Veremos!
Não se preocupem que estamos bem!
Um abraço e até breve, se Deus quiser!
Sá
22/03/10
Notícias da Guiné VIII
I Kuma, amigos?
Este mês estamos bastante em falta, mas a verdade é que temos justificações para isso :D
A primeira é que o trabalho, como eu já contava no último email, está a ser muito forte este mês, e a segunda é que, como não tenho ido a Bissau (há dois fins-de-semana seguidos que não vou), fico sem net para poder enviar o texto e as fotos…
Mas cá estou eu a redimir-me da ausência!
Desde o último post, tantas coisas mudaram…
Primeiro, o Miguel já tem 40 anos! :D Foi um momento engraçado esse. Não é fácil passar os anos longe da família e dos amigos. Para o Miguel, sobretudo, foi difícil não passar o aniversário com a mãe, uma vez que fazem anos no mesmo dia. Foi a primeira vez que não estiveram juntos. No entanto, por aqui, tudo fizemos para que ele não sentisse as saudades… e, claro… o peso dos 40! :D
Ele deve ter tido 3 ou 4 festas, pois todos quisemos festejar – começou com um jantar melhorado, no dia 27, em Canchungo. Eles foram comprar uns camarões do tamanho do prato e ficaram a noite toda a comer apenas camarões, sempre bem regados com uma “geladinha”; no dia 1, já em Bissau, fizemos um jantar com a equipa toda da FEC e mais dois amigos, foi muito animado. Como o próprio Miguel disse no seu “discurso”, quem diria, há sete meses atrás, que iria passar o seu 40º aniversário (um marco importante na vida) com 16 pessoas que nem sequer conhecia nessa altura. Inacreditável! Mas é a realidade, e não é má! Apenas diferente! Depois fomos dançar na noite de Bissau (que também a há, e bem animada!). No dia 2 houve mais festa! A Catarina, uma das nossas amigas da FEC (a que foi comigo a Catió), também fazia anos no dia 2 e preparou um lanchinho, à hora do pôr-do-sol, nas varandas da Pensão Central. Mais festa, mais coisas boas para comer, mais parabéns… :D E há noite ainda tivemos barriga para um bacalhau (o primeiro que comemos desde Outubro!) num restaurante português, com os nossos dois grandes amigos Cirilo e João.
Reparo agora que nunca vos falei na Pensão Central, o que é imperdoável. A Pensão Central é uma pensão gerida por uma senhora cabo-verdiana, a Dona Berta (“avó Berta” para metade dos brancos de Bissau) desde sempre. Ela é uma figura emblemática da cidade e a pensão parece ter sido um local belíssimo, situada mesmo na praça, ao lado da Igreja e dos Ministérios. Hoje, como toda a cidade, parece em ruínas… Para a FEC, e quase todos os brancos cooperantes que passam por cá, o local é uma referência – é onde as pessoas se juntam para contar e ouvir coisas da terra, para comer uma boa comidinha, para encontrar os amigos. Procurem na net e encontrarão muito sobre a Pensão Central e a “Avó Berta” (tem fotos acompanhada de toda a gente importante que por cá passa e já foi agraciada com muitas medalhas de mérito, até pelo governo português). No ano passado a Dona Berta ficou doente e regressou a Portugal, aliás, foi lá que a conheci durante a formação que fiz em Lisboa, na FEC. No entretanto, algumas pessoas que já cá estavam, decidiram pegar na Pensão e andar com aquilo para a frente durante a doença da Dona Berta. E fizeram-no bem, porque a Pensão continua. Já não se alugam quartos para fora, só para amigos e, de preferência por um tempo longo. Está engraçada, parece uma espécie de residência universitária. Eu e o Miguel ficamos por lá quando vamos a Bissau. A Dona Berta regressou no início deste ano, o que é um novo atractivo na Pensão – há sempre imensa gente a visitá-la! O melhor da Pensão são, sem dúvida, as varandas! Delas vê-se toda a avenida principal (como acham que tirei aquelas fotos “aéreas” do carnaval?) da praça do Império até ao rio… E corre um ventinho fresco! Nas noites de calor (ou seja, todas) não há melhor do que as longas conversas na varanda da Dona Berta!
E foram os festejos, prolongados, do aniversário!
No dia 6, regressamos a Bissau porque teve lugar um momento importante para a FEC – a entrega de certificados aos envolvidos no projecto anterior, o +Escola, que terminou em Julho de 2009. Foi um momento tão bonito! Estiveram presentes o Ministro da Educação, o Embaixador de Portugal, e representantes dos principais parceiros da FEC aqui na Guiné – a Igreja Católica, a SNV e a Plan (outras ONGs na área da Educação). A cerimónia teve lugar no Centro Cultural Português e teve várias partes – começou com a apresentação pública dos resultados da avaliação do impacto do projecto da FEC 2001/2007 (é sempre útil podermos medir o que foi feito, o que mudou, o que correu melhor e pior), pela Catarina; depois o coordenador da FEC na Guiné, o Simão, apresentou alguns resultados já apurados sobre o projecto +Escola (ainda está a ser feito o estudo de avaliação do impacto, mais a fundo); em seguida discursaram todas as personalidades presentes, louvando o trabalho da FEC na área da Educação da Guiné (Viva nós! Viva nós :D), a cooperação portuguesa e todos os envolvidos no processo; seguiu-se a entrega dos certificados aos professores e directores que participaram no processo de formação (certificado reconhecido pelo estado para a evolução da carreira docente, ainda em fase de organização) e, por fim, um director da região de Bafatá e outro de Cacheu, discursaram. Foi muito emotivo… acabou tudo em palmas, de pé e com centenas de fotos! Foi um momento bom, daqueles que dão alento para continuar a trabalhar mesmo quando tudo parece negro e sem luz ao fundo do túnel. Mesmo para a equipa foi um momento de união importante até porque todos estávamos a torcer por aqueles que participavam activamente – o Simão, coordenador do projecto, a Ana A., coordenadora da área da Educação, a Catarina, técnica de avaliação, a Ana Poças e o Cirilo, formadores no projecto anterior, que fizeram as honras à casa, com uma apresentação lindíssima (estavam os dois vestidos a rigor) e uma presença muito simpática!
O Miguel e o Cirilo, à custa desta cerimónia, fartaram-se de dar entrevistas à rádio! E aparecemos todos nas notícias da RTP África! Lá estava eu com o meu vestidinho vermelho, o único apresentável que trouxe! Foi uma boa oportunidade para poder sair do armário! :D
E, não fartos de festas, ainda tivemos espírito para, no feriado de dia 8 de Março (sim, porque aqui o dia da mulher é feriado!), nos juntarmos em casa do Simão e da Ana numa tarde de jogos – Trivial, Time’s Up, King… Soube bem!
Só festas… em Bissau é só festas! :D
E não tenho saído de Canchungo desde essa altura. O que não quer dizer que as novidades não aconteçam!
Esta semana fiquei toda contente com uma situação – o inspector Ernesto (inspector do Ministério, a quem nós damos formação de Gestão e Administração Escolar, mas que também trabalha para a FEC ao ser um dos meus formadores de Língua Portuguesa) foi connosco visitar Bidjope por causa da nova escola que estamos a ajudar a construir. Durante a viagem foi o caminho todo a gabar imenso as nossas iniciativas de formação a todos os actores do processo educativos, desde os professores às comunidades, etc, etc, etc. Eu já ia toda contente, é claro!
Mas o que mais me alegrou foi o discurso que ele teve com os elementos da tabanca que estavam presentes. Para além do já famoso discurso sobre “as maravilhas da FEC”, ele contou uma coisa que me surpreendeu e que foi a prova de que nem sonhamos como podemos, de facto, marcar a vida das pessoas. Segundo o discurso dele, há um “Ernesto antes da FEC” e um “Ernesto depois da FEC”, porque tem aprendido muitas coisas connosco (ele que é professor e inspector há mais anos do que aqueles em que eu habito este planeta :D). Deu muitos exemplos sobre aprendizagens que tem tido com o nosso contacto e dois tocaram-me profundamente: um, foi o de dizer que connosco aprendeu a ter criatividade e ânimo, pois o nosso trabalho, ver que alguém de fora está tão empenhado na qualidade do ensino da Guiné, faz o dele valer a pena; o segundo foi o de contar, sem qualquer tipo de problema, que se inspirou nos nossos documentos de formação para elaborar um programa de formação para um concurso que abriu numa ONG à procura de formadores para leccionar no parque de Cacheu conteúdos sobre a vida selvagem, preservação e outras coisas dessas. E ele fê-lo de tal forma correctamente, que foi ele o seleccionado e está a ganhar 40.000 por dia (cerca de 60 euros) nesse projecto. Não é fantástico? Mais do que aprender só conteúdos, ele aprendeu a forma de fazer as coisas, o processo, e isso já lhe serviu para melhorar a sua qualidade de vida. E hoje agradeceu publicamente à FEC, lá na comunidade, porque sem nós não teria aprendido a fazer um bom programa de formação e não teria ganho o concurso.
Fiquei muito orgulhosa do meu formador e do trabalho da FEC! Afinal, apesar da educação ser uma área onde os resultados não se conseguem medir nem sentir rapidamente, porque acontecem ao nível da estrutura de uma sociedade, por vezes temos destas boas surpresas que nos alegram os dias mais cinzentos.
E por falar na escola de Bidjope - já tem os tijolos prontos, já tem as traves da madeira prontas, só falta a decisão final acerca da localização da escola (há dois terrenos possíveis e estamos perante um impasse cultural entre manjacos e balantas… veremos o resultado, que ficou marcado para amanhã, segunda, dia 22!). Também já há dinheiro suficiente e aproveito para agradecer a todos os que fizeram o esforço de nos ajudar neste pequeno sonho! A FEC já se informou dos preços dos materiais, do orçamento e, em breve, adquiriremos todos os materiais necessários à construção da escola, que terá duas salas, um gabinete e um pequeno armazém.
Para a Eunice e a Manela, um obrigada especial por todo o esforço, dedicação e logística! Quando a escola estiver pronta penso mandar fazer uma placa a dizer “Com o apoio da FEC e da Associação A Ponte Amiga”, o que acham? Recordo ainda que quem enviou donativo e precisa de recibo, pode enviar os seus dados (nome completo, NIF e morada) para o meu email que a FEC enviará o recibo para casa.
Quanto à outra actividade que temos levado a cabo, ainda que sem grande publicitação pois para já tem sido quase ainda apenas entre família, a dos apadrinhamentos de crianças no sentido de lhes conseguir pagar a escola na Missão Católica aqui de Canchungo, tem também sido um sucesso – em poucos meses conseguimos apadrinhar 15 crianças, o que é fantástico! O nosso Uyé tem ido ao Jardim e tem-se portado muito bem e evoluído imenso nestes poucos meses. Ontem levei à Irmã o valor que me enviaram de Portugal para estes miúdos e ela ficou comovidíssima. São 15 crianças que teriam de abandonar a escola e poderão continuar nela, uma vez que os seus estudos são financiados por madrinhas ou padrinhos de Portugal. Obrigada também a todos os que participaram. Parece que na Páscoa terão uma surpresa… Ou não fossem madrinhas!! :D Quem estiver interessado em apadrinhar pode contactar-me ou contactar a minha irmã Manela (manecoelho@gmail.com) que é a pessoa que está a orientar o processo aí em Portugal.
Bem, de resto foi trabalho, trabalho, trabalho… sem tempo para passear, com grande parte dos fins-de-semana a trabalhar. Visita às escolas das tabancas todas as manhãs, e algumas ficam a mais de uma hora de caminho para dentro do mato, e muito trabalho administrativo e logístico da parte da tarde. A isto ainda temos de juntar os encontros semanais com os formadores que eu coordeno para preparar as formações intensivas do final do período – 2 sessões de Português, três de Pedagogia e cinco de Português a leccionar aos professores das Missões Católicas. Tudo a ser leccionado em seis dias. Uma vez que eu tenho que observar as sessões dos meus formadores, vejam o quanto eu terei que percorrer naqueles seis dias finais no mês (seis turmas em locais muito distantes).
As horas e a temperatura também não têm ajudado… Como as aulas começam às 8 horas da manhã, eu tenho de sair cedíssimo de casa para chegar aos locais a tempo. Como não temos carro e tenho de alugar uma daquelas 7 places que andam muito devagar, chego a ter de sair com uma hora e meia de antecedência, ou seja, há dias em que saio de casa às 6.30 da manhã! Esta semana aconteceram-me dois percalços com o transporte – num dia atropelamos uma cabra! Nada de anormal, uma vez que andam todo o tipo de animais na estrada. Eu até andava a estranhar ainda não ter morto nada! O pior foi que com o embate estragou uma peça do carro e foi por sorte que conseguimos chegar ao destino. Outro dia o caminho era mesmo muito mau, com muitos buracos, e como o carro é baixinho, raspava com o fundo e acabou por romper o depósito do óleo. Dessa vez ficamos mesmo no caminho… Ai estas aventuras!
E agora o calor começou a apertar a sério! De vez em quando vem um ventinho que começa a puxar a chuva, mas ela ainda não quer vir! Há-di chegá! Por agora só o sol a queimar e o pó no ar. Depois de vir da tabanca (hora de almoço, pelas 13) e até às cinco da tarde não se consegue sair de casa nem do escritório. A verdade é que comecei a ser fã da sesta!
Já quase me esquecia de dizer que no final da semana do Carnaval, que fui passar a Bafatá, consegui finalmente conhecer o irmão do Roberto! Foi fantástico poder abraçar o irmão de um grande amigo, uma pessoa com quem eu já tinha falado por telefone, há muitos anos, logo na chegada do Roberto ao Porto, e que nunca imaginei poder conhecer. Tiramos fotos para enviar ao Roberto, claro está!
E deixei as duas principais novidades para o fim: a primeira é que decidimos ir a Portugal passar a Páscoa, o que deixou as nossas famílias muito contentes e já nos pôs a contar os dias! :D
A segunda, é uma longa história que passo a contar – estávamos nós sossegaditos a gozar a paz de Canchungo, quando abre um concurso para coordenador de uma ONG guineense, financiada pela União Europeia. Alguém nos reencaminhou o email achando que o perfil pedido era mesmo a cara do Miguel. Claro que ponderamos o assunto, mas achamos que estávamos bem e que talvez não fosse a altura certa para mudar. Mas a vida tem destas coisas e num fim-de-semana, em Bissau, o Miguel encontra um dos elementos da dita ONG, num café, que traz o assunto à baila e o aconselha a concorrer. Já tinha ouvido falar muito bem do Miguel e do seu trabalho (vejam só o meu orgulho!) e gostaria mesmo muito que o Miguel concorresse, que tinha o perfil ideal para o lugar, etc, etc, etc. O Miguel não se deixou seduzir imediatamente mas a verdade é que foi “namorado” dois dias seguidos e acabou por concorrer mesmo no último momento (já fora do prazo, na verdade!). A proposta era muito tentadora! E bem, o resto é fácil de imaginar – ficou entre os cinco seleccionados pelo CV, foi à entrevista pessoal (e houve entrevistas feitas em Portugal), e foi o seleccionado. Vocês esperavam outra coisa? :D
Já assinou contrato e começará funções em meados de Abril, depois de regressarmos de Portugal. E estamos ambos muito entusiasmados – um cargo de coordenação de uma ONG muito forte na Guiné, a Tiniguena; boas condições de trabalho; uma ONG local, o que sempre atraiu o Miguel; uma área de trabalho muito ligada aos estudos que ele acabou de fazer (o Marketing e a Gestão); o trabalho da Tiniguena, muito ligado aos pequenos projectos locais e muito na linha do micro-crédito, no qual nós acreditamos como solução para o desenvolvimento… O projecto em si chama-se “Kil ki di nôs tene balur” – o que é nosso tem valor! Bonito, não?
E é assim… lá vai o rapaz para Bissau, para a boa vida, e eu fico por cá, no interior, a sofrer as agruras do terreno! :D :D Claro que passaremos metade da semana juntos entre eu ir a Bissau e ele vir cá mas, teremos de nos desabituar a passar 24horas por dia juntos, o que, e podendo parecer estranho, nós adoramos. É o início de uma nova fase nesta nossa vida estilo “montanha-russa”. Uma coisa é certa – ficarmos aqui mais dois anos, a duração do contrato do Miguel. Eu não sei bem o que farei à minha vida no próximo ano, mas sem dúvida que ficarei por cá, pela Guiné.
Um abraço apertado e até muito breve! :D
Vejam lá se chamam o bom tempo para nós… já não sei o que é ter frio! :D
19/02/10
Notícias da Guiné VII
Então, ainda continuam por aí? Os comentários diminuíram… talvez já tenham deixado de sentir saudades nossas, quem sabe! :D Ou então já não escrevemos nada de novo :D
Esperamos que tenham gostado dos excertos do livro “O outro” e que tenha sido uma base para algumas reflexões sobre os outros que passam nas nossas vidas!
Este mês foi um mês bastante normal (por aqui até se diz “tudo normal, como na Guiné”) – trabalho, trabalho, trabalho e Carnaval!
Quanto ao trabalho este foi um mês puxado com as visitas todas às escolas das tabancas, mas também gratificante pelo contacto mais directo com os professores e as crianças. Faz-nos perceber melhor a verdadeira realidade do interior da Guiné, bem diferente da realidade de Bissau.
Este contacto mais directo tem-nos obrigado a reflectir mais profundamente sobre a questão linguística.
O nosso projecto é de promoção e divulgação da língua portuguesa. Tudo estaria bem se esta não se tornasse numa questão fundamentalista, bastante marcada por pressões políticas e económicas vindas do mundo lusófono. Claro que o português é importante num país cuja língua falada por todos é uma língua apenas oral, sem estrutura escrita. Claro que a Guiné poderia beneficiar com as publicações já existentes em língua portuguesa – de Portugal, dos PALOP e, sobretudo, do Brasil -, e também é claro que o português será a língua da ciência pois o crioulo não tem termos técnicos. Mas… de que vale impor o português se, de facto, quase ninguém o fala? É deprimente ir assistir a aulas da primária em que os professores falam português o tempo todo (talvez por eu estar presente, bem o sei), achando que estão a cumprir muito bem as orientações superiores, quando os alunos não percebem nada porque não conhecem a língua em que a aula está a ser dada! Eu própria, que me considero uma boa aluna, dificilmente teria aprendido a ler e a escrever, com sete anos, se as aulas me fossem dadas em chinês!! Já imaginaram o que é aprender a ler e a escrever (já por si só duas técnicas difíceis de aprender) numa língua que nada significa para nós? Só existem significantes e nada de significados… Deve ser desesperante! É necessário uma reflexão séria sobre o que interessa – a língua em si ou a passagem de conteúdos?
Eu, por mim, sou muito mais a favor do bilinguismo – será a única forma de fazer uma passagem natural do crioulo (ou da língua materna) para o português. Um pouco como começamos a fazer com o inglês na escola primária em Portugal.
E a Guiné ainda tem o problema da afirmação do Francês dos países aqui à volta. Muitas vezes encontro pessoas que falam crioulo e francês em vez do português! Viva a verdadeira confusão!
Muitas vezes, quando vou ao mercado, começo por falar português em casa, crioulo na banca de alguma “mindjer garandi” que não fala português, francês com o costureiro que é da Guiné-Conakry e com a senhora onde vamos buscar comida, senegalesa, e termino a falar Inglês com o vizinho de cima que é da Gâmbia. Como já tinha referido… é uma babel!
O nosso próprio prédio é uma experiência fascinante – portugueses, guineenses, mouros da Mauritânia, gambianos, senegaleses…
Por falar nisso, estou a falar crioulo que é uma maravilha! :D Afinal é a língua do país onde estou… porque não o haveria de aprender? Porque se acha que não tem cabimento e o que é importante é falar o português? Ai estes novos colonialismos!!!
O mais importante que eu posso deixar a estes professores são, de facto, as técnicas didácticas e, também é verdade, o desenvolvimento no seu uso do português, mas não tenho ilusões que o português se torne a verdadeira língua falada por todos os guineenses no seu quotidiano. E, para falar a verdade, nem sei se teria lógica!
Tenho pena de não conhecer melhor as experiências espanholas e italianas sobre o desenvolvimento paralelo e manutenção dos dialectos e da língua nacional. Pelo que percebi da vivência com italianos, em Moçambique, e agora com espanhóis, também não foi algo pacífico. Muitos espanhóis ainda hoje se apresentam como “catalães” ou “galegos”, sendo que a questão linguística é uma marca muito forte neste sentimento de “não pertença”.
E voltamos ao mesmo tema da minha tese de mestrado… Como se forma uma identidade nacional em países como estes, com uma história tão retalhada, tão fragmentada, repletos de etnias diferentes? O que os une de forma a que se possam sentir guineenses? Uma só língua? Não! Uma só religião? Não! Costumes e raízes comuns? Não!...
Estes novos países não têm mesmo uma tarefa fácil… Só de me lembrar que nós somos “portugueses” desde 1143 (pelo menos no papel pois as identidades precisam de tempo para se criarem)… são apenas mais 900 anos! E nós, países do Norte, queremos exigir aos países africanos que façam o que nós fizemos em séculos (sim, porque somos herdeiros directos dos gregos, romanos, etc…) em apenas algumas décadas! E de uma forma imposta, exportando um modelo que nada tem a ver com as realidades africanas…
Bem, deixo-me de exaltações :D
Também não nos têm faltado momentos de lazer. Em Canchungo, no início do mês, assistimos à missa nova de um novo padre, filho de Canchungo. Foi uma cerimónia muito bonita, um misto de religião tradicional com os rituais católicos. Saímos da casa da família do novo padre, em procissão. Ele trazia vestidas as vestes tradicionais e pelo caminho iam elementos representando o trabalho agrícola, fundador de toda a sociedade africana, os familiares já falecidos, a fecundidade. Chegados à igreja, vestiu as vestes do ritual católico e presidiu à eucaristia, animada por cânticos emotivos, por danças, procissões de oferendas, etc. De um sincretismo incrível! Estavam presentes representantes da igreja muçulmana e da igreja evangélica, os chefes da religião tradicional, o régulo de Canchungo, o Administrador da região… A tradição e a modernidade, as diversas crenças, tudo reunido num dia de festa comum para os filhos de Canchungo. São momentos de um grande ensinamento para nós!
Recebemos, entretanto, duas novas colegas na FEC, com a abertura de um novo projecto ligado à Educação de Infância. Outra realidade esquecida, até agora, na Guiné-Bissau, e que poderá, se atingir bons níveis de qualidade, ajudar a resolver alguns graves problemas da língua e da educação na Guiné-Bissau. Veremos o que vai acontecer! É o mal de se trabalhar em educação – os resultados nunca se conseguem medir no curto prazo!
Uma destas colegas passou uns dias em nossa casa para conhecer melhor a realidade dos Jardins do interior e então andamos a fazer algumas visitas – umas mais educativas, outras mais turísticas. Só nesta altura me apercebi que desde que chegamos (e já lá vão quatro meses) nunca mais tínhamos ido ver o braço de mar que entra aqui em Canchungo! Que trengos… só vemos trabalho à frente e até nos esquecemos das belezas da terra! Claro que o fomos apresentar às visitas, aproveitando para usufruir da vista e relaxar um pouco.
Neste último fim-de-semana fui para Catió, capital da província de Tombalí. É apenas a 300 Kms de Bissau mas parece uma viagem ao fim do mundo.
Parti de Canchungo para Bafatá na Sexta-feira (a Guiné é tão pequena que só nesta viagem passei por quatro regiões diferentes – Cacheu, Biombo, Oio e Bafatá) para me encontrar com mais duas amigas com quem iria partir para a aventura no fim-de-semana – a Ana e a Catarina. Foi uma noite muito fixe, tipo “campos de férias” – dormimos as três no mesmo quarto, colchão no chão, e conversamos até às duas da manhã! Estão a ver o filme! O Miguel diz que nós parecemos saídas de um livro da colecção “As Gémeas” EhEhEh!
No Sábado partimos às sete horas da manhã com o objectivo de chegar a Catió, no ponta sul do país. Bem… foi uma viagem interminável! Fomos de Candonga (aquelas carrinhas tipo HIACE que levam tudo e mais alguma coisa dentro) e demoramos sete horas na viagem. Pelo caminho paramos em algumas “estações de serviço” para a costumeira “ida ao mato” e para comprar laranjas, bananas ou mancarra. Foi incrível! Passamos por três regiões diferentes (Bafatá, Quínara e Tombalí), com estradas inacreditáveis de terra batida repletas de verdadeiras crateras impossíveis de contornar. Mas bonito, muito bonito! E tivemos conversa para todo o tempo da viagem, o que ainda é mais admirável!
Em Catió, a Ana tinha trabalho mas eu e a Catarina aproveitamos para conhecer a cidade e passear um pouco. O Pe. Maurício, um dos padres da missão católica que nos recebeu, simpatiquíssimo, levou-nos a conhecer alguns locais bonitos e até o braço de mar que passa por ali. E, à noite, fez-nos uma carbonara que só por si já fazia valer a pena a viagem! :D
No Domingo de manhã foi um S. João para regressarmos – como já era o Domingo gordo, não havia transportes públicos a funcionar, excepto a candonga das sete da manhã a qual não podíamos apanhar pois a Ana tinha de estar presente numa sessão de formação das oito às nove. Bem, confiamos na sorte (e eu em Deus!) e ficamos à espera de outra solução. O pe. Maurício deu-nos um gozo valente e só dizia: “Estas raparigas têm um programa muito estranho!”. Na verdade, quem faz tantas horas de viagem para regressar na manhã seguinte? Entretanto eu fui à Missa e deixei a Catarina a procurar uma solução. E não é que se encontrou mesmo? Foi a mais hilariante possível! A região de Catió, como todas as outras, tinha uma comissão de festas para participar no Carnaval em Bissau e portanto partiam no Domingo, por volta das nove para Bissau… e lá nos deram boleia! Conclusão – viemos as três na candonga oficial do Carnaval de Catió, a abarrotar de gente quer dentro quer por cima (havia sofás e tudo no tejadilho da carrinha!), a apanhar com sete horas de assobios, batuques, megafone, palmas… íamos ficando surdas mas… chegamos a Bissau sãs e salvas (eu ainda ouço batuques constantes dentro da cabeça!). Melhor, as estradas de Bissau foram fechadas para os desfiles e nós iríamos ter fazer uns quilómetros a pé, mas como fomos na caravana oficial de Catió, pudemos passar até à Praça, mesmo onde queríamos ficar! Sentimo-nos as rainhas do Carnaval de Catió! :D
O Carnaval em Bissau foi uma agradável surpresa – é muito animado, muito organizado, muito genuíno. Participam grupos das diferentes regiões, consequentemente de diferentes etnias, com diferentes trajes típicos, músicas, e danças. Foi mesmo muito Afro! :D
E já estamos quase em Março… o tempo voa mesmo e o calor começa a apertar, de novo! Este próximo mês será de trabalho louco – imensas formações (sessões de Pedagogia, Língua Portuguesa e às Missões Católicas), a segunda observação aos professores das escolas das tabancas, respectivos relatórios, avaliação intermédia do projecto… digamos que as férias da Páscoa serão bem merecidas! :D Para iniciar bem o mês teremos os anos do Miguel, logo no dia 2.
Ah! Já agora, faço o ponto de situação do projecto da escola de Bidjope – a recolha ainda continua mas estamos a tentar fechar até à primeira semana de Março. As obras já começaram – a comunidade escolheu o terreno, já o limpou e preparou para a construção e estão na fase final de execução dos tijolos. A fase seguinte será construir as traves de madeira, também trabalho feito pela comunidade, e nessa altura nós compraremos o zinco e os pregos para realizarem a cobertura. O objectivo é concluir a construção antes das chuvas começarem, em Maio. Pela primeira vez, estas crianças poderão ter um ano lectivo normal, sem a interrupção com a época das chuvas. Não é incrível? Quem ainda quiser contribuir (e ainda seria necessário algum dinheirito) pode fazê-lo para o seguinte NIB 0038 0024 00485370771 26. Para mais informações, podem ainda consultar o blog criado por alguns alunos e amigos nossos – http://a-ponte-amiga.blogspot.com.
E bem, despedimo-nos com um abraço apertado e um até breve.
Temos saudades do Porto!