23/03/11
04/02/11
Notícias de Bissau/Mansoa I
uma primeira palavra para pedir perdão pelo meu silêncio, felizmente sentido por vários amigos que me interpelam em diversos estados de preocupação e zanga :Dmas também tenho a certeza que sabem que silêncio não é sinónimo de esquecimento! e não é mesmo!
o mês de janeiro voou... o que é obra na guiné!
aqui é tudo muito mais calmo, sem os stresses de bissau. vive-se muito mais a interioridade que eu experimentei em canchungo. não é fácil estar sempre a começar relações em sítios diferentes, e isso custa-me um pouco. mal acabo de criar uma rede de relações (mais ou menos intensas) lá estou eu a mudar outra vez de local! e em mansoa tenho ainda outra agravante, não tenho equipa, estou mesmo sozinha – vivo sozinha e devo ser a única cooperante a trabalhar na cidade… o que me salva são os jornalistas da rádio, onde acabo por passar quase todo o dia!
levar para casa. ela só vendia laranjas descascadas – três por 100 francos (15 cêntimos). pedi então à senhora que me vendesse laranjas ainda por descascar senão as outras iriam estragar-se. após alguma resistência, ela fez-me esse favor mas estava com dificuldade em fazer o preço pois como não descascaria duas, teria de me fazer preço mais barato… e nenhuma de nós tinha troco… claro que eu não me importei nada, afinal ela estava a fazer-me um favor, a estragar o negócio dela (que tira lucro em as descascar), claro que insisti para lhas comprar pelo preço das laranjas descascadas! mas a verdade é que a senhora não me queria deixar fazer isso… depois de muita insistência, eu lá lhe dei os 100 francos e peguei nas três laranjas (uma descascada e duas por descascar), agradecendo e querendo vir embora. ela abriu-me a saca e meteu mais uma por descascar… eu estava parva com a situação… andamos sempre preocupados que nos enganem por sermos brancos, sobretudo em bissau, e depois acontecem cenas destas que nos deixam totalmente sem palavras…as maravilhas do interior!
alugamos uma 7 places e fomos com uns amigos. cinco horas de viagem… mas foi muito bom! interessante verificar como o senegal sabe aproveitar os recursos para o turismo, e a guiné, exactamente com a mesma costa, não tem nada preparado… a falta de oferta na guiné faz ainda com que os preços das coisas mais ou menos turísticas subam imenso enquanto no senegal tudo é muito mais barato devido à concorrência.
ficamos num hotel mesmo em cima da praia, num estilo meio “hipp
O areal enorme deu para uma caminhadas, o atlântico aqui é mais generoso na temperatura, o ar “tropical” tem a sua graça… até as vacas gostam de aproveitar o sol por aqui!
no regresso à guiné, na fronteira do senegal, onde nos revistam as malas tirando tudo o que lá está, meticulosamente (haviam de ver a cara do polícia a verificar o estojo dos medicamentos do miguel… achou que ele era um potencial traficante!! :D é um pouco hipocondríaco o meu rapaz!), apercebemo-nos que faltava a minha mala… só eu!! eu achei que o miguel a tinha posto no carro e ele achou que eu a tinha levado (tudo isto porque decidi ir à casa de banho no minuto de sair)… ou seja, a mala ficou em cima da mesa, no hotel! como tudo tinha boa onda, lá liguei eu para o hotel (já estávamos a três horas do hotel e voltar para trás não era hipótese pois a fronteira fecha…) a perguntar se tinham visto a minha mala. simpatia, claro! já a tinham guardado e esperavam que alguém voltasse para a buscar. pedi que a guardassem… não sabia quando voltaria! o tipo da 7 places, o motorista que nos levou e nos foi buscar, prontificou-se a passar lá da próxima vez que tivesse algum trabalho para o senegal… e pronto! como eu digo sempre, apesar de nada parecer exequível, não há nada que não tenha solução na guiné… passado nem uma semana lá estava o gibril a bater-me à porta com a minha mala, em perfeitas condições e sem que lhe faltasse nada! e esta?? :D
mas antes de partirmos para cap skirring, sábado, às 8.30 da manhã, lá estávamos nós na embaixada, como bons emigrantes, a cumprir o nosso dever cívico nas eleições presidenciais!
penso que já terei falado antes sobre o concerto de ano novo. eu e o emanuel, um colega que mora no mesmo “aldeamento” que nós, tínhamos sentido falta dos concertos de natal, da música natalícia. entre cozinhados e corredores, lá nos decidimos a organizar qualquer coisa dessas. mandei uns emails para as diversas ongs em bissau, para embaixadas e outras instituições, falei com o padre da catedral de bissau, contactamos o coro da catedral e metemos mãos à obra. conseguimos juntar cerca de 20 pessoas interessadas, o que para o ambiente de bissau (um pouco separatista, cada grupinho com as pessoas da sua organização) não foi nada mau! com o pessoal guineense do coro da catedral éramos cerca de 35 pessoas! escolhemos um repertório natalício com peças em diferentes línguas e começamos os ensaios em dezembro, continuamos depois de todos retornarmos das férias de natal e foi um processo muito intenso! entre zangas pelos atrasos, dificuldades em ler as letras estrangeiras (o alemão e o inglês foram um quebra-cabeças para os guineenses), stresses por causa das faltas e pela responsabilidade, momentos de arrepiar a pele pela beleza e mistura de estilos… foi uma fantástica experimentação do estilo fusão! no adeste fideles decidimos começar de uma forma muito clássica, com órgão e todo o coro a cantar muito certinho. após a primeira estrofe, o órgão pára e entra o batuque a marcar o ritmo, tudo começa a dançar e a música transforma-se… estou a escrever a sentir a pele toda eriçada! escusado será dizer que o concerto foi um sucesso – a catedral estava cheia… devemos salientar que não há actividades culturais deste género em bissau, e com “este género” quero dizer concerto com corais e que misturem as diferentes populações de bissau (guineenses, cooperantes, missionários,
os pedidos para esta experiência continuar chovem de todo o lado e várias pessoas vieram já oferecer-se para cantar connosco! vamos a ver… a minha estadia em mansoa não ajuda muito… a ver se conseguimos um dia de ensaio que seja possível para conjugar com todos.
a guiné tem isto de bom – é tão pequena, tem tanta falta de tudo e uma abertura tão especial que tudo é acolhido de uma forma única e extremamente sentida! e depois os contactos são tão próximos… imaginem que estavam presentes pessoas da embaixada, coordenadores de várias ongs, etc… foi um momento de grande comunhão!
para terminar, fica um episódio hilariante!
ontem vim para mansoa e como o nosso jipe tem um problema numa peça (o que acontece todas as semanas…) tive de vir em transportes públicos. para mansoa não é fácil apanhar 7 places, há poucas, então tive de vir de candonga (carrinha tipo hiace) onde cabe sempre mais um. esperei cerca de 45 minutos para que enchesse (e encher significa até não caber mesmo mais nada… viemos cerca de 20 pessoas na carrinha!)e lá iniciamos a nossa viagem! como tinha ido levar o miguel ao aeroporto e esperado por uns amigos que vieram de portugal visitar a guiné só tinha dormido quatro horas e acabei por adormecer (perdi a minha esquisitice de não dormir com luz, em viagens e em posições desconfortáveis… agora durmo em todo o lado, com o sol a bater-me de frente, se for preciso, e em qualquer posição!). acordei quando já estávamos perto de mansoa, com uma grande confusão, muitas vozes e muita discussão. espreitei da candonga e vi o motorista da nossa candonga a ter problemas com a polícia que lhe estava a pregar um valente sermão, entre voz alta e muitos gestos. percebi que deveríamos estar com problemas de documentos… quando olho melhor percebo que a polícia era uma senhora a quem eu, de vez em quando, dava boleia para mansoa. ela mora em bissau e vem todas as manhãs trabalhar para jugudul. como eu desde outubro venho todas as quintas gravar o meu programa a mansoa, acabei por encontrá-la várias vezes e comecei a dar-lhe boleia. ficamos amigas! :D
nem penso e decido sair para cumprimentar a deolinda, talvez ela ficasse mais disposta por me ver :D mal me viu, esqueceu o motorista e deu-me um grande abraço, perguntando-me de onde eu tinha saído que ela não tinha visto o meu carro passar. eu explico-lhe que tinha vindo naquela candonga, pois o meu carro estava avariado. ela abriu um sorriso e deu um grande aperto de mão ao motorista, dizendo-lhe “só por causa da minha amiga vir consigo é que lhe perdoo. vá lá embora” e ficamos as duas na cavaqueira, marcando boleia para a próxima terça feira. quando regresso à candonga todos me sorriram como se eu lhes tivesse salvo a vida!!
o motorista, então, não sabia como me agradecer!! disse-me que sempre que eu quisesse vir para mansoa lhe ligasse que ele me arranjava um lugar na frente!! :D :D
ehehehehe….
VIVA A GUINÉ!!!!
21/12/10
Natal de Bissau...
partilho um texto de um pensador, khalil gibrain (grande inspirador da minha loucura) que reflecte sobre o dar e o receber.
um tema que me inquieta todos os dias e que é adequado à época natalícia.
que a meditação e a visão de um presépio negro nos ajude a cortar as amarras que nos prendem, a abrir o espírito ao outro, a aceitar as diferenças, a lidar com a procura dos diferentes caminhos da felicidade, nos ajude a dar e a receber cada vez melhor.
com um abraço cheio de esperança num mundo melhor, os desejos de um feliz natal e de um ano novo vivido com intensidade,
sá
A Dávida
Vós pouco dais quando dais de vossas posses!
É quando derdes de vós próprios, que realmente dais.
Pois, o que são vossas posses, senão coisas que guardais por medo de precisardes dela amanhã?
E amanhã, que trará o amanhã ao cão ultraprudente que enterra ossos nas areias movediças, enquanto segue os peregrinos para a cidade santa?
E o que é o medo da necessidade senão a própria necessidade?
Não é vosso medo da sede, quando vosso poço está cheio, a sede insaciável?
Aos que dão pouco do muito que possuem, fazem-no para serem elogiados, e seu desejo secreto desvaloriza seus presentes.
E há os que pouco têm e dão-no inteiramente.
Esses confiam na vida e na generosidade da vida, e seus cofres nunca se esvaziam.
E há os que dão com alegria, e essa alegria é sua recompensa.
E há os que dão com pena, e essa pena é seu batismo.
E há os que dão sem sentir pena nem buscar alegria e sem pensar na virtude:
Dão como no vale, o mirto espalha sua fragrância no espaço.
É belo dar quando solicitado; é mais belo, porém, dar sem ser solicitado, por haver apenas compreendido;
E para os generosos, procurar quem receberá é uma alegria maior ainda que a de dar.
Existe alguma coisa que possais conservar?
Tudo que possuís será dado.
Dai agora, portanto, para que a dádiva seja vossa e não de vossos herdeiros.
Dizeis muitas vezes: " Eu daria, mas somente a quem merece".
As árvores de vossos pomares não falam assim, nem os rebanhos de vossos pastos.
Dão para continuar a viver, pois reter é perecer.
Certamente, quem é digno de receber seus dias e suas noites é digno de receber de vós tudo ou mais.
E que mérito maior haverá do que aquele que reside na coragem e na confiança, mais ainda, na caridade de receber?
E quem sois vós para que os homens devam expor seu íntimo e desnudar seu orgulho a fim de que possais ver seu mérito despido e seu orgulho rebaixado?
Procurai ver primeiro, se vós próprios mereceis ser doadores e instrumentos do dom.
Pois, na verdade, é a vida que dá a vida - enquanto vós, que vos julgais doadores, sois simples testemunhas.
E vós que recebeis - e vós todos recebeis - não assumais nenhum encargo de gratidão, afim de não pordes um jugo sobre vós e vossos benfeitores.
Antes, erguei-vos, juntos com eles, sobre asas feitas de suas dádivas.
Pois, na verdade, se ficardes demasiadamente preocupados com vossas dívidas, estareis duvidando da generosidade daquele que tem a terra liberal por mãe e Deus por pai.
Khalil Gibrain
11/12/10
Notícias de Bissau III
estou a viver uma experiência muito interessante. estou numa cidade pert
é uma boa oportunidade ouvir as experiências de outros países vizinhos que têm problemas humanitários - há delegações do senegal, do mali, da mauritânia, do burkina fasso, do níger, do tchad - e de países que têm orçamento para os ajudar - estão presentes a caritas inglesa, espanhola, americana e francesa.
os países da região do sahel , são os países que se encontram dentro de uma faixa do continente africano, da costa ocidental à oriental, que estão numa zona em desertificação e que é muito vulnerável a situações de crise como as secas e as inundações. para além disso, quase todos têm instabilidade política, o que agrava os factores económicos.
em todos estes países, a caritas (a ong da igreja católica em todo o mundo. é a acção social da igreja e está organizada por dioceses. é a segunda maior ong do mundo, a seguir à cruz vermelha) tem um papel fundamental na resposta às populações em situações de crise provocadas por catástrofes naturais.
o congresso em que estou a participar é um dos encontros que este grupo de trabalho dinamiza anualmente, para tratar destas preocupações comuns. o tema deste ano é: “os desafios, as oportunidades e as perspectivas da agricultura no sahel”.
é um tema de extrema importância porque tenta abordar as formas de prevenção da fome em situações de emergência ou catástrofes naturais. de facto, e esse é um tema muito discutido nos países africanos, seria de uma extrema importância que cada país africano conseguisse assegurar a sua segurança alimentar de forma a evitar as fomes, a evitar a sua vulnerabilidade e dependência do clima ou da ajuda internacional.
está a ser uma experiência muito interessante para mim. a verdade é que até há bem pouco tempo não sabia muito sobre o assunto. já tinha ouvido o miguel falar sobre isto porque este é um dos domínios da tiniguena mas só agora, ao preparar-me para a conferência que tive de fazer sobre a situação na guiné-bissau, é que me dediquei verdadeiramente ao assunto. e estou a aprender muitíssimo.
a cartitas guiné-bissau está a participar, pela primeira vez, neste encontro porque o país tem zonas, sobretudo no leste e no norte, onde a desertificação (geográfica, não no sentido de fuga de população) se começa a notar, bem como outras consequências das alterações climáticas (subida do nível das águas do mar que está a provocar a salinização das águas dos rios, o que, por sua vez, está a pôr em perigo o cultivo do arroz, por exemplo).
a apresentação da guiné-bissau foi esta tarde e correu muito bem.
para além disso estão a saber-me bem estes dias “fora” da rotina. é sempre bom viajar e conhecer outras realidades, outros problemas, ter outros desafios.
o mês de novembro foi um mês cheio de trabalho na rádio e na fec. em fevereiro próximo a fec irá celebrar os 10 anos de existência na guiné-bissau e já estamos a começar os preparativos. o programa de rádio “tabanka do português” continua o seu caminho e estamos a conseguir chegar a cada vez mais população, uma vez que estamos a distribuir o programa por diversas rádios comunitárias onde a rádio nacional não chega. é bom!
no mês passado fui a canchungo várias vezes – uma porque aproveitei uma boleia e queria muito ir ver o meu pequenote, o uyé; outra porque fui a um pic-nic organizado pelo colega que agora está em cxg aquando do seu aniversário, e outra porque levei os meus amigos portugueses que me vieram visitar.
é verdade, recebi os meus primeiros visitantes desde que cá estou e é uma experiência muito agradável poder mostrar a minha terra aos meus amigos. tentei organizar tudo o mais possível, uma vez que não há propriamente “pacotes” vendidos nas agências de viagem po
com eles fui visitar a escola de bidjope, aquela construída com fundos recolhidos em portugal (talvez mesmo por ti, que estás a ler este texto), a missão católica de canchungo (onde já temos cerca de 40 crianças apadrinhadas), e muitos, muitos sítios bonitos na guiné. neste preciso momento devem estar para bafatá, depois de um fim-de-semana nas ilhas!
tenho outra novidade para contar, quase esquecia!
eu e o emanuel, um colega meu vizinho, achamos que o espírito natalício estava fraco por aqui – nada de frio, de cachecóis e gorros, de símbolos natalícios, de família (as nossas, pelo menos), de música, de neve… tudo a que o natal nos habituou desde a infância. :D andamos então uns tempos a cantarolar “christmas carols” pelos corredores da casa e do trabalho… até que nos lembramos: e se organizássemos um concerto de natal/ano novo??? e se bem o pensamos… melhor o fizemos! tomamos a iniciativa (difícil!!) de unir cooperantes de várias nacionalidades em prole de um objectivo comum. falamos com o pároco e o coro da catedral de bissau e… voilà!! teremos um concerto no dia 29 de janeiro, de início de ano (depois dos cooperantes voltarem de natal, por isso a data tão tardia!) com o coro da catedral e cerca de 20 cantores amadores, de diversas nacionalidades, cheios de boa vontade, que se uniram pela simples razão de gostarem de cantar! estou toda entusiasmada!!
para dar uma ideia de universalidade, escolhemos músicas de natal em diferentes línguas - latim, português, inglês, francês, italiano, alemão - e terminaremos todos a cantar uma peça em crioulo. para além disso, e porque o coro da catedral também canta connosco, estamos a tentar uns arranjos bem multi-culturais! já imaginaram um “adeste fideles” cheio de ritmo, ao som do batuque? asseguro-vos que fica fantástico! estilo “fusão” :D (e o nosso d. joão iv que nos perdoe!)
o mês de novembro foi também o mês das celebrações da independência de angola. o centro cultural português, em parceria com a embaixada angolana, passou diversos filmes e documentários sobre angola e eu tentei ir sempre que pude. passaram filmes muito interessantes mas quase todos chocantes – quer sobre o tempo colonial, quer sobre o pós-independência. será que é agora que angola encontra o seu caminho? ou será que vai voltar a perder-se nos meandros do petróleo, criando uma luanda desfasada do resto do país, uma luanda de e para brancos e elites, esquecendo a população? …
em cacheu teve lugar um grande acontecimento – o festival dos quilombolas. com muita pena minha não pude assistir a nenhum espectáculo, mas, afortunadamente, acabei por assistir ao encerramento, em bissau.
explico – a guiné-bissau era um dos locais privilegiados pelos portugueses na captura de escravos para o brasil. os negreiros aproveitavam-se das lutas étnicas desta região e faziam negócio com algumas etnias mais fortes que lhes vendiam os negros que faziam prisioneiros em etnias mais fracas. todos sabemos como estes escravos chegavam ao brasil – acho que não há ninguém que não se lembre das imagens dos barcos negreiros dos livros de história…
alguns destes escravos mais fortes, conseguiam fugir aos seus senhores e refugiavam-se nas matas brasileiras. conforme se iam juntando, criavam comunidades chamadas de quilombos. muitos brasileiros na actualidade provêm destes quilombos e denominam-se de quilombolas. um grupo específico de uma região brasileira decidiu fazer pesquisas sobre os seus antepassados e descobriu que descendiam de escravos provenientes da região de cacheu e decidiram organizar uma visita à terra dos seus antepassados.
foi uma experiência fantástica – cacheu engalanou-se toda para receber os “familiares brasileiros”. foi uma semana de festa, música, dança, comida… eram esperadas mais de 500 pessoas em cacheu naquela semana! algumas ongs apoiaram o evento, assim como a embaixada brasileira. o encerramento teve lugar no centro cultural brasileiro e foi uma cerimónia muito animada à qual eu tive a sorte de assistir!
e cá fica mais uma partilha!
até breve e bom espírito natalício…
sá
05/11/10
Notícias de Bissau II
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há bichos… bichos por todo o lado, milhares de tamanhos, feitios, cores e diferentes graus de incomodação… bichos que nos caem em cima vindos de todo o lado… bichos… a guiné é a terra dos bichos! não há mosquiteiro que proteja!
sinal do fim da chuva, do aperto de calor durante um mês, e promessa de dois ou três meses mais amenos, em seguida.
com a mudança do tempo todo o mundo ficou doente entre gripes, constipações, narizes e gargantas… eu não escapei, mas o miguel sim. quem diria!
por aqui tudo bem!
tem sido engraçado receber uma equipa nova, com uma visão refrescante sobre tudo o que acontece. para alguns é mesmo a primeira vez em áfrica, o que é sempre muito marcante. um dos novos colegas tem observações muito engraçadas sobre o que vê. uma das coisas que mais o marcou nestes primeiros tempos foi o facto de ver porcos por todo o lado. isso fez-me voltar a reparar nisso… de facto, eu já nem reparo que há vacas, porcos, cabras e galinhas a circular nas ruas. para mim, estranho é chegar a portugal e não ver um único animalzinho a dar o seu colorido às ruas!
eu e o miguel falamos nisso de vez em quando - não queremos deixar de nos espantar com as diferenças que esta vida nos proporciona. não queremos que tudo passe a ser “normal”. temos de nos manter atentos! outra coisa da qual falamos regularmente é sobre o risco que corremos de ficar “desencantados” com o nosso trabalho, com a guiné, com áfrica. é muito normal entre as pessoas que vivem a sua vida em locais destes que, passado algum tempo e como resposta às dificuldades sentidas, à imobilidade das coisas, ao ritmo lento com que tudo acontece, se sintam desiludidas, desencantadas, descrentes.
como todos, corremos esse risco. mas não queremos ficar descrentes nem amargos. se isso acontecer, e espero que o notemos a tempo, queremos poder mudar de país, de cultura, para continuarmos a realizar um trabalho de corpo e alma, acreditando na sua utilidade e respeitando a cultura onde estamos inseridos e as pessoas para quem trabalhamos.
viver entre culturas diferentes é sempre um desafio que apenas a convivência, a abertura de espírito e o tempo podem ajudar a vencer.
durante este tempo na guiné dei por mim muitas vezes a pensar que o povo guineense não era extremamente simpático (sei que falar em “povo guineense” é um abuso de generalização e que tudo o que vou escrever em seguida está profundamente marcado pela limitação que todas as generalização têm, no entanto, é a partilha de um sentimento que me levou a observar melhor as pessoas e a tentar melhor compreendê-las). e claro que não pude deixar de o fazer, muitas vezes comparando com a minha experiência em moçambique. no entanto, muitas das atitudes que via apontavam-me para a extrema camaradagem dos guineenses, o que me deixava confusa, sem saber bem como explicar o que sentia, nem para mim mesma, nem para os outros. e, quem já me conhece, deve saber que não descansei enquanto não consegui perceber isto um pouco melhor.
na verdade, fui-me apercebendo que o povo guineense tem uma forma diferente de acolher, uma forma diferente de ser simpático. com diferente leia-se, ‘diferente da nossa’. para eles, somos nós que somos diferentes.
raras vezes ouvimos dizer um “por favor”, um “obrigado”, um “desculpe”. muitas vezes nem resposta nos dão. quando paramos um táxi e lhe perguntamos se vai para a praça, é normal que eles arranquem sem dar nenhuma resposta, percebendo nós que não, não iam para a praça (e isto acontece tanto com estrangeiros como com guineenses). também é verdade que raramente são eles os primeiros a cumprimentar-me quando vou na rua, ao contrário do que me sucedia em moçambique em que demorava horas para fazer um pequeno percurso a pé só porque todos me paravam e queriam conversar comigo.
o guineense parece-me mais desconfiado, tem mais ‘o pé atrás’. quem sabe como explicar isso? a diversidade de povos num espaço tão pequeno? a colonização mais intensa? a guerra colonial e civil que os transformou em potenciais inimigos uns dos outros? assim de repente não sei explicar. realmente, à primeira vista e segundo os parâmetros de uma cultura mais europeia, penso que talvez os guineenses não sejam um povo “simpático”.
no entanto, têm outra característica fantástica, muito perdida no mundo - a solidariedade, a camaradagem, como há pouco disse. não há nunca quem fique sem comer quando chega a uma ‘morança’, à hora da “bianda”. não há quem fiquei na estrada porque há sempre quem pare e ajude, não partindo sem que tudo fique ‘dritu’. não há quem fique de pé porque há sempre lugar para mais um em qualquer banco. não há ladrão que fique sem uma boa sova porque todos se juntam para o apanhar e o fazerem pagar até devolver tudo o que tirou. é mesmo impressionante!
uma das coisas que me acontece com mais frequência tem a ver com as compras (para além da ajuda na estrada uma vez que o jipe continua a avariar a um ritmo alucinante!!). bandim é o nome do grande mercado de bissau, um local onde tudo existe, mas mesmo tudo! um enorme centro comercial a céu aberto, dos dois lados da estrada principal que leva o aeroporto à entrada da cidade, cheio de cores, cheiros (nem sempre agradáveis), sons… um daqueles sítios onde a guiné existe a plenos pulmões! acontece-me por diversas vezes perguntar numa ou noutra banca se tem isto ou aquilo, coisas mais ou menos complicadas (uma tripla mas com pinos finos para poder entrar nas tomadas modelo italiano da casa onde vivo. ou um adaptador, talvez…) e a verdade é que nunca vim embora de mãos vazias, não tanto devido à minha perícia em compras (quem me conhece sabe que não é uma das minhas qualidades) mas pela atenciosidade de algum rapazote de uma qualquer banca que me oferece ‘a lata de pernas para o ar feita banco’, me põe a tomar conta da sua banca e desata a correr o bandim todo à procura do que eu quero… nunca vi tal! e depois vende-mo pelo mesmo preço que acabou de pagar por ele! Só para que nunca fiquemos sem o que precisamos! com a água acontece o mesmo - gosto sempre de água fresca e nem sempre é fácil encontrar porque para se vender água fresca é necessário que a ‘banca’ tenha luz, o que não é provável que aconteça, portanto já estou mentalizada para me adaptar… mas a verdade é que nunca fiquei mal porque há sempre uma criança por perto que é mandada pelo vendedor a outra parte para me comprar ‘iagu frescu’…
um destes dias ia para a praça, para o francês, e apanhei um táxi. eu era a primeira cliente e sentei-me no lugar da frente. depois foram entrando outras pessoas pelo caminho. um dos senhores indicou o sítio para onde queria ir e eu percebi que o condutor, um rapaz novo, tinha ficado com uma cara de dúvida. Achei que ele tinha ouvido mal e repeti eu o local. percebi assim que o rapaz não sabia mesmo qual o caminho a seguir. Eeeu, num crioulo aportuguesado lá o fui orientando pelas ruas de bissau (‘bu bira na mon direita, dipus bai reto, gosi bu bira li”…). os senhores do banco de trás iam perdidos de riso - a branca, estrangeira, a falar crioulo e, ainda por cima, a indicar o caminho. meteram-se na conversa e ficamos todos em grande cavaqueira. aí o rapaz do táxi explicou-nos que era o seu primeiro dia como taxista e que nem era de Bissau. já cá tinha vindo mas era de uma região do interior. foi uma risota geral! e mais nos rimos quando, chegados aos diversos destinos de cada um de nós, ele nos perguntava quanto costumávamos pagar por aquela distância, porque nem sabia os preços!!! só na guiné, mesmo!
outra história que prova o grande espírito de solidariedade, e a responsabilidade que isso traz, dos guineenses foi uma passada com uma grande amiga, no ano passado. penso já ter contado que o grande transporte entre as regiões é a 7 places e que esta só parte quando se tiverem vendido os sete lugares, o que se pode transformar numa espera interminável, como devem perceber. esta minha amiga andava a viajar e tinha de apanhar várias 7 places ao longo do caminho (quando fui à gâmbia, penso que tivemos de apanhar quatro até chegarmos ao nosso destino), o que se foi tornando cada vez mais desesperante pelo tempo da espera entre cada uma. já mesmo a apanhar a última que a traria a bissau, essa minha colega ‘passou-se’ e teve uma atitude ‘à branco’ (pois… às vezes não se consegue mesmo evitar! :D) - decidiu comprar os bilhetes que faltavam para que a 7 places pudesse partir naquele preciso momento. para o motorista não fazia problema nenhum - afinal, tinha os bilhetes todos pagos e podia partir. para os outros viajantes, também parecia ser uma boa ideia - partiam todos mais cedo!...
pois aí é que está a especialidade deste povo - nunca esquecerei esta cena por mais que viva - os outros passageiros viraram-se para a minha amiga e perguntaram-lhe como podia ela fazer uma coisa dessas, sem pensar nas pessoas que iriam chegar, que precisavam daqueles lugares a mais que ela comprou. Pessoas que teriam agora de esperar muito mais tempo para que chegasse uma nova 7 places, podendo até ficar sem transporte naquele dia…
Sem comentários…
Perante isto só posso interrogar-me sobre os meus conceitos de simpatia!
E termino com outra história só possível neste país tão descontraído e relaxado – aqui, na legislação, o dia do feriado de Todos os Santos, como em todo o mundo, é dia 1 de Novembro, mas como as pessoas querem ir no dia 2 aos cemitérios, visitar e prestar homenagem aos seus mortos, o feriado real goza-se neste dia, e não no dia determinado!
E esta, hein? :D
Uma boa semana!
sá
14/10/10
Notícias de Bissau I
o mês de agosto, depois da mudança de canchungo para bissau, trouxe-nos alguns momentos de paz. Eu, em relativas férias, o miguel em ritmo lento, uma vez que era dos poucos que não tinha férias e, portanto, a tiniguena estava a meio gás. Foi bom, depois de alguns meses mais afastados, voltarmos a ter tanto tempo para nós.
a chuva foi tanta, tanta, que bissau inteira alagou e pouco saímos de casa. o bom foi que, sempre que chovia (e isso foi quase sempre), o tempo refrescava um pouco.
no final do mês, viajei para portugal para passar uns dias pelo norte, antes de iniciar a formação de preparação para o ano, em lisboa. custou-me deixar o miguel mas foi muito bom ter tempo para a família e os amigos. é tão bom voltar e parecer que nem saímos, sermos acolhidos com braços abertos por todo o lado. se me perguntassem qual é, para mim, a vantagem de se ser “emigrante”, eu diria essa – a possibilidade de voltar e ser recebida com um abraço por tantos. não deveria ser assim… deveríamos sempre dar valor aos que temos à volta, mas a verdade é que a distância também nos ajuda a atribuir esse valor (e falo tanto por quem fica como por quem parte!).
apesar do pouco tempo, este foi muito bem aproveitado e, nos entretantos, deu para descansar um pouco.
lisboa foram quase duas semanas em “terra de ninguém”… desculpem-me falar assim, mas foi mesmo um sentimento estranho. não tinha os meus, não tinha o miguel, a equipa nova da fec ainda não era “a minha equipa”… foram dias estranhos e até um pouco difíceis mas… tudo se leva quando há um “bem maior”.
durante estes dias pude perceber melhor as actividades que me estão destinadas para este ano e pude apoiar um pouco os novos colegas na abordagem à realidade guineense e suas próprias actividades.
apeteceu-me muito regressar à guiné, apesar das saudades já sentidas pelos que, mais uma vez, iria deixar. foi bom o miguel ter ficado – deu-me uma razão para voltar (ainda que houvesse outras, claro).
mas nem assim consegui deixar de sentir o frio no estômago ao aterrar no aeroporto osvaldo vieira… aquele avião não é só um transporte no espaço… de cada vez que faço esta viagem sinto que viajo para tempos e dimensões diferentes… acho até que já escrevi sobre isto…
o miguel estava à minha espera no aeroporto, claro está, e como já conhece tudo e todos em bissau – tem amigos por todo o lado, é impressionante – já estava lá dentro, logo após o carimbo dos passaportes…
bastou um olhar para que o frio na barriga passasse e voltasse a estar em casa!
depois de um fim-de-semana a dois, em que voltamos a mudar de casa (8ª casa, desde que casamos!), parti para ndame, uma missão, perto de bissau, onde toda a equipa da fec, incluindo todos os guineenses, se reuniu em formação e team building. foi uma semana muito interessante!
o sítio é fantástico, mesmo ao estilo de missão – muito verde, muito ar livre, um céu imenso, muitas estrelas, banquinhos colocados nos sítios certos… austero a nível material mas pleno a nível espiritual. o que se pode desejar mais? como alguém dizia, depois das semanas loucas em portugal a tentar aprender tudo na formação, com imensas burocracias para tratar e com todo o stress das despedidas, é óptimo ter uma semana assim, com tempo para nós, para nos centrarmos no sentido do que estamos aqui a fazer.
gostei mesmo muito – de dia tínhamos formação sobre o trabalho, e já trabalhamos mesmo naquilo que irá ser o ano de cada um de nós, e à noite havia sempre equipas designadas para os momentos de animação que foram mesmo animados. o miguel, para se meter comigo, diz que pelo que eu conto foi mais uma semana de “campo de férias” do que de formação. :D mas eu não tenho nada contra. só quem nunca fez “campos de férias” é que não sabe o que perdeu!! :D
a última semana de setembro começou com cada equipa a ir para o seu posto de trabalho – canchungo, bafatá e bissau.
por solidariedade, e com uma lágrima no canto do olho, fui acompanhar a equipa de canchungo. Ainda me lembro do choque que tive quando chegamos, sozinhos, e vimos a casa… quisemos amparar um pouco o choque! :D mas a aventura estava reservada para nós… na viagem de ida, furamos um pneu do nosso jipe… não há viagem a canchungo em que não nos aconteça alguma coisa! mas bem.. apesar de não termos macaco (!!) lá nos arranjamos com a ajuda do carro da fec. afinal, havia pneu suplente e isso é o mais importante! estar lá foi óptimo, sobretudo por poder rever os amigos. é engraçado ir na rua e ouvir o nosso nome - “miguel, lassa” – sempre acompanhado de grandes sorrisos e braços a acenar… isto vai-me fazer falta!
no regresso, nova aventura - furamos outro pneu… mas agora, nem macaco nem suplente! lá voltamos para trás, para a povoação mais próxima, bula. o sol a pôr-se, quase escuro… lá encontramos (graças a Deus o Cirilo estava connosco) um senhor que tinha pneus. depois de muito procurar na sua improvisada oficina, com as lanternas e as luzes dos telemóveis, o senhor acabou por encontrar um pneu igual que servia no nosso jipe. quando o encheu percebeu que estava furado mas, como o furo era pequeno, colou-o para podermos chegar a bissau em segurança. e foi isso mesmo que o pneu durou! quando chegamos a bissau e paramos para jantar ele ainda estava razoável, mas quando saímos, encontramo-lo completamente em baixo. acabamos a noite a ir para casa de táxi! foi uma bela recompensa pela boa vontade! :D
a semana passou comigo a ser apresentada às pessoas com quem me irei relacionar durante o ano – jornalistas da rádio sol mansi (rsm - uma rádio nacional equivalente à Renascença) de Bissau e jornalistas da rsm de mansoa. serão o meu público-alvo, como os projectos gostam de dizer! ainda muito trabalho de escritório, muitas reuniões de preparação… o necessário para enraizar bem este início, de forma a ficar bem forte para o terreno.
na quinta dessa primeira semana já fui a mansoa gravar o meu primeiro programa de rádio – “tabanka do português”. foi muito engraçado! nunca tinha trabalhado numa rádio e foi interessante ver como tudo funciona, mesmo sem as mais altas tecnologias. o programa é apresentado por mim e pelo meu colega guineense, o mussa, e funcionou muito bem. treinamos o texto algumas vezes para que ele se sinta à vontade na leitura e partimos para a gravação. também gostei muito de sugerir as músicas para o programa e elaborar as matérias para as diferentes rubricas do programa – passatempos, poemas, comparação do crioulo com o português, etc. ainda vou descobrir que também nasci para isto!! :D
no regresso dessa viagem a mansoa, percebi que um dos pneus do meu jipe estava muito vazio e enchi-o antes de regressar a bissau. a viagem correu bem, mas quando cheguei a casa, percebi que tinha furado outro pneu… haja paciência! três pneus em cinco dias! deve ser um novo recorde! :D
vou fazer esta viagem todas as semanas durante este ano e é algo que faço com muita felicidade. geralmente faço a viagem sozinha, o que me permite deixar a cabeça viajar para onde ela quer, enquanto o meu “piloto automático” tenta fugir aos buracos, causados pelas chuvas diluvianas que caem há cinco meses e causadores de tantos estragos nos carros.
sabem-me tão bem estes momentos! a paisagem é fantástica – são 70 quilómetros de rectas, variando entre vegetação intensa e bolanha (os campos de arroz). nos percursos de vegetação cheira sempre à multiplicidade de verdes existentes, geralmente mais do que aqueles que se podem observar, nos de bolanha cheira a água forte, água que submerge os arrozais e permite sobreviver na guiné. já se vêem muitas pessoas metidas nessas águas até ao peito (nunca entrar em águas paradas – dizem-nos na consulta do viajante!). ainda não é tempo de apanhar o arroz, mas é necessário cuidar da bolanha, vai um ano de muita chuva este, e é preciso aproveitá-lo bem.
pelo caminho, muitas pessoas a pé, idas ou vindas do trabalho do campo. crianças que nos acenam, enquanto nos gritam um “brancoooooooo, umpeleleeeee” que fica a soar por alguns instantes. não consigo nunca controlar o grande sorriso que me vem imediatamente… por vezes grito um “preto, umbaaaaaau”, em resposta, o que provoca uma explosão de gargalhadas nos pequenos… se fosse sempre assim tão fácil lidar com as diferenças ao longo da vida, pela sua simples enunciação a plenos pulmões…
aproveito estas viagens, em que me sinto totalmente em comunhão com a natureza e com tudo o que me rodeia, para agradecer a Deus tudo o que de maravilhoso vai acontecendo. agradeço por mim e até por aqueles que não sabem o que é a gratidão. são momentos de grande intensidade para mim, as viagens.
voltando ao trabalho que faço, esta segunda semana já foi uma semana-tipo: às segundas estarei no escritório da fec, em bissau, a tratar do plano de comunicação da instituição (temos publicações impressas e on-line regulares que é preciso alimentar com material fec-gb, diversas campanhas e, particularmente este ano, a celebração dos 10 anos da fec- gb); às terças, quartas e sextas estou na antena da rsm, em bissau, a ajudar a preparar o material para os blocos noticiosos em português, orientando os jornalistas, corrigindo as suas peças, ajudando na dicção e entoação da pivot, entre outras coisas; às quintas vou, então, a mansoa, à antena da rádio, gravar o programa “tabanka do português” e dar apoio ao programa lusofonias. este programa passa em portugal na rádio sim e é feito pela fec com o apoio de rádios nos diversos países lusófonos. aqui da guiné sai uma pequena peça semanal para integrar o lusofonias e eu estou encarregue de prestar apoio ao colega guineense que tem essa incumbência. para além disto, às sextas, mensalmente, dou formação em sala aos jornalistas da rsm e das outras seis rádios de bissau, no sentido de os capacitar num melhor uso do português na redacção e leitura das suas notícias.
por causa da rádio e da obrigação de ajudar à elaboração de cada bloco noticioso, estou cada vez mais a par das notícias e dos acontecimentos e… só me dá pena da guiné e dos guineenses… mereciam melhor do que isto!
ao fim do dia, das cinco às sete, estou a frequentar um curso de francês, no centro cultural francês (muito forte aqui devido a esta ser uma zona francófona), que dá acesso aos exames franceses e ao respectivo certificado internacional. quem sabe para que me poderá servir? nunca sei em que país estarei a seguir, portanto… estou a adorar rever os meus conhecimentos de francês e tenho a sorte de ter uma excelente professora francesa, o que é uma grande vantagem.
tempo muito ocupado (apesar de ao ritmo próprio da guiné), portanto, e muito contacto com guineenses, como eu desejava. evito, a todo o custo, cair no circuito dos “brancos de bissau”, onde é possível habitar sem ter contacto com a realidade africana. não é isto que eu procuro!
o miguel, por sua vez, também continua com imenso trabalho e responsabilidade, decorrentes da sua função na tiniguena e na sua forma apaixonada de abraçar tudo aquilo em que acredita. as coisas estão-lhe a correr bem! neste preciso momento está para cantanhez, uma zona de mata, de uma intensa biodiversidade, onde a ong tem diversos projectos ligados ao ambiente e ao desenvolvimento local. apesar de ir sempre contrariado (resiste sempre a ter de trocar o seu cantinho onde sabe que tem luz e água e comida que gosta, por uma aventura no mato onde nada disso existe e onde come peixe com arroz a todas as refeições…), acaba por adorar cada missão que faz no interior e traz sempre novas histórias para contar.
neste último fim-de-semana fui a canchungo matar saudades, mas esses episódios, e outras teorias que ando cá a magicar, ficam para outro dia.
deixo-vos só com uma frase, que me escreveram uma vez, e a qual encontrei ao desfazer novamente as malas no nosso novo cantinho.
sorri e fiquei mais disposta a gostar de bissau e das suas gentes:
“vejo Deus nos rostos dos homens e das mulheres, e no reflexo das minhas feições no espelho. encontro pelas ruas as cartas que Deus deixou cair e cada uma está assinada com o Seu nome. e ali as deixo, porque sei que aonde quer que eu vá, outras aparecerão para todo o sempre.”
walt whitman
07/08/10
Despedidas...

Custa-me sempre partir… mas gosto de fazer as malas.
Fiz as malas mais uma vez. Já saí de casa. Já deixei Canchungo.
Nunca me é, e duvido que algum dia venha a ser, fácil deixar uma casa onde fui feliz.
Apesar de todas as vezes em que me queixei da falta de água, apesar de todas as dificuldades que a casa me fez passar, ficará sempre na lembrança como um cenário de partilha de Vida. Como cenário de experiência dura mas de crescimento, cenário de proximidade das pessoas.
De tempos a tempos, gosto de olhar para a minha vida e distinguir o importante do acessório. Descobrir o essencial.
E não apenas no sentido metafórico, gosto mesmo de poder decidir quais as coisas de que preciso para continuar a viver com paz, tranquilidade e segurança. Talvez por isso tenha sobrevivido sem grandes mazelas a viver em três países, cinco cidades, sete casas, em apenas quatro anos.
É de uma liberdade estonteante perceber que quase nada é essencial… as roupas, estas ou outras, um mínimo de produtos de higiene e medicamentos, algumas fotos, alguns livros, alguma música… sempre “estas ou outras”. Quando partimos é bom que a mala tenha espaço para permitir que o que vamos encontrar à chegada se instale nela.
O essencial está sempre connosco, se partimos inteiros. O essencial vai fazendo casa em nós. O essencial é a capacidade de fazer casa em qualquer lugar. O essencial é esse paradoxo de ir recheado com o que levamos de nosso e nos apresentarmos vazios para poder preencher com o que é novo.
Mais uma vez tive de reduzir a minha vida ao essencial, para vir a descobrir que Canchungo inteiro coube na minha mala. Essa que transporto para qualquer lado mundo. Essa que faz casa em qualquer lugar.
Gosto de fazer as malas… mas custa-me sempre partir.
