20/07/10

Notícias da Guiné XI



Cá estamos para dar um “olá”, ainda que breve.

Pela primeira vez fiquei mais de um mês sem acesso à net e, portanto, não foi possível enviar as reflexões que tanto prazer me dão a escrever e que me permitem ir estando em contacto com o mundo desse lado. As tempestades também não têm ajudado… até as linhas telefónicas andam difíceis!

Também é verdade que o mês de Junho, ao contrário das minhas expectativas, foi muito complicado a nível de trabalho e o Julho está a ser de doidos, completamente!

Gostei de ver, no entanto, que algumas pessoas sentiram a nossa falta – vários foram os mails e até sms a perguntar se estava tudo bem, se estávamos vivos e de boa saúde. Afinal… ainda não fomos totalmente esquecidos (nem pelos alunos de há tantos anos… na altura em que a História era outra, não é Pedro?!) ! :D

Pois, aqui vão, em estilo telegráfico, alguns comentários sobre o que temos andado por cá a fazer. Não é o meu estilo preferido, mas é o possível nesta altura:

- em primeiro lugar, e para quem não sabe, o mês de Junho entrou com a necessidade de tomada de decisão sobre o futuro, e nós decidimos ficar mais um ano. A FEC sabia que eu no próximo ano queria vir para Bissau para eu e o Miguel podermos estar juntos e propôs-me um lugar em Bissau (coordenadora da Comunicação), e eu aceitei. O trabalho parece ser interessante (dar formação a jornalistas, ter um programa numa rádio nacional, organizar as publicações da FEC na GB e tratar da comunicação interna) e é mais um desafio para mim, mais uma novidade!

- o Miguel anda muito contente e realizado no seu trabalho. Depois de uma difícil adaptação à cidade (já estávamos habituados ao “terreno”), à nova instituição, às novas funções e até a ter de viver sem mim (primeiro estranha-se, depois entranha-se!! :D), tudo entrou nos eixos e lá está ele todo feliz num projecto que tem pernas para andar e com o qual se identifica muito. Já foi por três vezes a missões no terreno (e este “terreno” é mesmo muito interior) e voltou sempre com imensas histórias para contar – viagens de canoa fantásticas, tempestades marítimas para enfrentar, viagens no mato bastante superiores a safaris, excursões nas bolanhas (plantações de arroz) com água até ao peito… está um verdadeiro “todo o terreno”, o meu marido! :D

- depois da decisão de ficarmos por cá mais um ano (ou dois), decidimos comprar um jipe e lá encontramos um Mitsubishi Pagero muito fixe em quinta ou sexta mão. Tivemos um mês inicial muito complicado (avariava em todas as viagens), mas agora já entrou na linha e tem sido uma grande ajuda, sobretudo para eu e o Miguel nos podermos visitar mutuamente. Isso também nos tem permitido viajar um pouco mais e para festejarmos os cinco anos juntos fomos fazer um fim-de-semana ao Saltinho, um lugar paradisíaco junto ao rio. Foi mesmo muito bom e deu para cortar um pouco com o imenso trabalho do dia-a-dia!

- Junho trouxe também o S. João, e nós, como bons portuenses que somos, decidimos festejá-lo em Canchungo e foi uma bela festa! A Catarina, vimaranense que foi substituir o Miguel em canchungo, deu o grande incentivo e todos alinhamos – o Cirilo aderiu logo (festa é festa), o Miguel veio de Bissau e convidamos alguns amigos espanhóis (de outra ONG) e guineenses. Foi um verdadeiro S. João! Não faltou o peixe grelhado (bentana, não sardinha… mas quem não tem cão, caça com gato!), o pimento, a saladinha… Foi uma noite animada com muita música multicultural!

- agora também é tempo de balanço e foi fantástico ver que, para além do trabalho que nos trouxe cá, e que foi bem cumprido, também conseguimos fazer outras coisas com a ajuda dos nossos amigos em Portugal. Há duas em particular que nos fazem ficar orgulhosos – os apadrinhamentos e a construção da escola de Bidjope.

Quanto aos apadrinhamentos, conseguimos apadrinhar 20 crianças durante este ano lectivo. Nada mau para um projecto que nem divulgação teve, que caminhou apenas pelo “passa palavra” da nossa família. Foi um belo trabalho que permitiu que algumas crianças que não têm possibilidade de estudar conseguissem manter-se na escola. Para o ano veremos o que mais se poderá fazer!

Quanto a Bidjope, também foi impressionante a adesão das pessoas ao apelo que fizemos. Por grande incentivo de amigos e de alguns ex-alunos organizou-se a associação “A Ponte Amiga”, que tem feito esforços para que Bidjope seja uma realidade. Durante o ano conseguiu-se dinheiro para a construção, a comunidade levantou o edifício, nós compramos os materiais, a escola foi tapada antes das chuvas começarem para não cair, e neste momento só falta cimentar e rebocar a escola.

A comunidade parou os trabalhos porque esta é a época da lavra, e se não lavrarem não há nada para comer no próximo ano… Mas já prometeram recomeçá-los para que, em finais de Setembro, inícios de Outubro, se possa inaugurar a escola com a abertura do ano lectivo. Também nessa altura distribuiremos os materiais escolares que nos chegaram pelo correio. À porta da escola será colocada uma placa com os dizeres «Escola construída com o apoio da associação “A Ponte Amiga” e da FEC» e…. grande surpresa… será chamada de “A Ponte Amiga”! Não é bonito? Já foi aberto um concurso na Associação para que se escolha um logótipo para a escola, porque aqui a DRE quer estampar t-shirts para o uniforme!

Onde isto já vai… é bom ver o que Deus faz com os nossos pequenos passos!

E isto ainda não acabou… Apesar de saber poucas coisas (querem surpreender-me!) sobre o assunto, parece-me que haverá um sarau no dia 23 de Julho para angariação de fundos para uma biblioteca da região de Cacheu! Esta Associação tem pernas para andar e não parece querer ficar parada! Fico muito orgulhosa!

- num dia desta semana o Miguel estava num café da cidade de Bissau e o vendedor de jornais vai ter com ele e diz: “ó senhor, compre o jornal que hoje a sua cara aparece lá!”. Foi tão engraçado! Um dia destes o Miguel falou com um jornalista do “Nô Pintcha”, o principal e mais antigo jornal guineense (cujo título significa “nós avançamos”), o primeiro após a independência, sobre a sua reportagem sobre a emigração clandestina, escrita no ano passado na viagem à Mauritânia, e ele mostrou-se muito interessado no assunto. O Miguel enviou-lhe o texto e este foi publicado (a primeira parte) na edição desta semana! As voltas que o mundo dá… quem diria… nessa altura nem sabíamos que viríamos para a Guiné… quase um ano depois, o artigo sai num jornal africano, bem perto do local que lhe serviu de inspiração e onde foi redigido! Mais um motivo de orgulho para nós!

- o mês de Julho trouxe também as primeiras despedidas… três das nossas amigas e colegas da FEC regressaram esta sexta a Portugal. Tinham fortes motivos pessoais e já tinham terminado a sua parte do projecto. Só as Supervisoras terão trabalho até às 00h00 de dia 31 de Julho! Pobres de nós! :D Mas a verdade é que é muito triste ver partir pessoas que partilharam as nossas vidas, sabendo que agora seguiremos vidas separadas… parece coisa de adolescente, mas as despedidas custam sempre! Sobretudo porque conseguimos criar um clima muito forte entre nós, constituindo não só uma equipa boa tecnicamente, mas também muito boa em termos humanos, muito comprometida com o projecto e muito preocupada com as pessoas que estão à volta. Não vai ser fácil repetir uma equipa assim!

E bem, esta semana teremos o meu 31º aniversário e terei alguma tristeza por não poder partilhá-lo com a família e os amigos… Como é possível não ter um pic-nic no meu aniversário? :D

Devo passá-lo a trabalhar, porque ainda tenho milhares de coisas para fazer até conseguir encerrar a minha parte do projecto – as sessões de formação (quinze dias seguidos com cerca de 100 professores em formação, em quatro cidades diferentes…que eu tive de coordenar e visitar diariamente) só terminaram na sexta-feira e agora falta toda a parte administrativa e burocrática de tudo isso. Para além das 180 provas (português e pedagogia) para rever e introduzir no computador!

Em Agosto, passarei a primeira semana ainda em Canchungo, onde me voluntariei a dar uma semana de formação aos professores da missão católica (a mesma onde apadrinhamos os alunos), e depois virei para Bissau de vez. Estarei duas semanas de férias metida em casa (as chuvas estão a deixar tudo impossível de transitar!) e no dia 22 de Agosto viajarei para Portugal, para uns dias de férias. Depois da formação em Lisboa, nas primeiras semanas de Setembro, regressarei a casa, a Bissau, para mais um ano na Guiné. O Miguel ficará por cá pois não pode gozar férias agora. Veremos quando poderá tirar uns dias para ir à terra. As saudades do Porto apertam muito!

Bem, até breve… esperemos que apreciem as fotografias que enviamos!

Passa sabi!

Festas

07/06/10

Bidjope

Gâmbia

Notícias da Guiné X



Amigos, cá estamos nós ao fim de algum tempo, ausência desculpada (espero eu!) pelas fotos colocadas há quinze dias atrás, mesmo que sem o devido texto a acompanhar.
As desculpas são as mesmas de sempre e mais uma – trabalho, trabalho, trabalho… e uma semana de férias na Gâmbia! :D
O mês de Maio foi um mês muito cheio de trabalho e de novas sensações.
Foi o mês da última visita às escolas para observação das aulas dos professores, motivo de orgulho ao ver alguns avanços e empenhos, motivo de desespero por ver que, tantas vezes, nada mudou. O normal ao fim de um ano de trabalho, certo?
Para mim, foi também a oportunidade, mais uma, de visitar o país real, as tabancas do interior, onde não passa um carro durante o ano inteiro à excepção das nossas visitas, onde o conceito de “safari” se torna banal pela beleza quotidiana, pelo grandioso sentido da imensidão e do divino que nos tomam o ser. Pela última vez visito as escolas e recebo mangas e caju em troca. Tudo é dado nestes pequenos presentes.
Foi o mês da Feira do Livro no Liceu de Canchungo. Uma verdadeira surpresa para todos! Penso que ninguém esperava o que aconteceu. O director do liceu tinha planeado, ainda com o Miguel, uma feira do livro na semana da celebração do Hô Chi Minh, rebelde vietnamita que deu o nome ao liceu e que se comemora no dia 19 de Maio. Todos pensamos curto e colocamos à venda apenas alguns livros oferecidos pela Embaixada de Portugal e de uma editora guineense. A afluência foi tão grande que tivemos de procurar novas soluções e colocamos à venda manuais escolares e outros materiais que existiam no contentor da FEC. Claro que vendemos tudo a preços muito simbólicos (cerca de 75 cêntimos cada livro), sobretudo para evitar a “caridadezinha” em que tudo é dado, e a verdade é que se venderam 374 livros! Foi um sucesso espantoso que ninguém previa! No próximo ano já decidimos fazer algo mais bem planeado, com livros mais adaptados à realidade e que possa melhor satisfazer a procura. Mas, ainda assim, não deixou de ser surpreendente a vontade de livros que sentimos naqueles dias. Foram dias de loucura, a nível de trabalho, mas valeu a pena, não há dúvida disso.
A nível institucional foi um momento de grande promoção da FEC pois aparecemos na comunicação social e o liceu mostrou uma gratidão enorme por esta nossa iniciativa. Foi gratificante!
Foi ainda o mês da distribuição de manuais escolares da primeira classe (os únicos que se encontram à venda na Editora Escolar) às dezasseis escolas do projecto deste ano, para além da entrega dos manuais dos professores aos professores das quatro classes. Foi uma trabalheira contar e separar mais de 900 kits de manuais, mas é sempre uma alegria chegar às escolas e ver a forma como são recebidos. Nem consigo imaginar o sistema de ensino português sem manuais…
E, para terminar, foi ainda o grande mês das obras da escola de Bidjope! No dia 18 visitei a escola e foi espantoso ver as paredes todas levantadas, a comunidade toda envolvida em torno do fabrico dos tijolos de adobe e da construção das paredes, já bem visíveis. Aproveitei e fiz uma reportagem completa do mesmo – apresentei todos os cantos da obra, entrevistei o director da escola, o inspector do sector, alguns alunos que estavam presentes…Foi uma grande alegria ver o nascimento de uma obra que todos sonhamos e auxiliamos. Na semana passada, com o dinheiro enviado, a FEC comprou o zinco, os pregos e o cimento necessários e transportou todos os materiais para Bidjope, onde as obras terão de continuar a bom ritmo, uma vez que as chuvas já ameaçaram por três vezes. Em breve não nos largarão de vez, e quem não preparou a sua casa, já não terá oportunidade de o fazer até Novembro.
Em Portugal soube de histórias lindíssimas sobre esta campanha de Bidjope e tenho pena que as pessoas não as coloquem por escrito para poderem ser divulgadas aqui neste mesmo espaço. Uma que muito me marcou foi a de um amigo que tem uma espécie de ATL e que sensibilizou as crianças e os pais para esta construção de uma escola na Guiné. De uma coisa de nada ele conseguiu mobilizar uma série de pessoas para a solidariedade. E sei que isso aconteceu com diversas pessoas, às quais agradeço. Agradeço eu e agradece o mundo, pois não são apenas as crianças de Bidjope que beneficiarão com a nova escola, serão também as crianças que participaram e que se poderão tornar adultos mais atentos ao mundo que os rodeia, ao mundo que precisa deles e que está mesmo debaixo do seu nariz. Estas campanhas nunca ajudam só quem recebe, ajudam também aquele que participa activamente.
Por aqui o calor está insuportável. É ler todas as descrições do tempo na Guiné e acreditar que tudo é pouco para o que se sente na verdade – é uma moleza indescritível! Só apetece ficar deitado na cama, com uma ventoinha próxima (ai de nós que não temos electricidade durante a tarde!) numa completa languidez, o que é impossível devido ao imenso trabalho. Sempre que não vou a conduzir adormeço todo o tempo das viagens, tal é o cansaço provocado pela temperatura. O suor escorre por todo o corpo e nem o banho consegue apagar a sensação de calor que todo o corpo emana. O nosso próprio cheiro se altera e é de uma intensidade brutal. Tudo tem um cheiro intensíssimo. As breves visitas da chuva, três noites até agora, deixam a promessa de uma lufada de ar fresco e o cheiro a terra molhada que inunda as casas. Deixam também antever o estado das estradas de terra batida, completamente intransitáveis logo ao fim de uma noite de chuva. Não queremos imaginar como estarão ao fim de cinco meses! Em alguns locais que ficam inacessíveis já começaram as compras de provisões para toda a época das chuvas. Felizmente isso não acontece em nenhum dos nossos locais de trabalho - Canchungo, Bafatá e Mansoa -, já dotados de estrada de alcatrão até Bissau.
A apanha da castanha de caju está a chegar ao fim, mas ainda há um cheiro a caju em todas as estradas ladeadas por esse fruto, tão doce e colorido (que continua sem me conseguir convencer!). As mangueiras estão todas carregadas e por todo o lado se vêem mangas caídas no chão. Tem sido uma parte importante da minha alimentação. Como cerca de quatro mangas por dia, daquelas enormes (sim, já sei o que são “mangas de faca”, Roberto!) e com um sabor fantástico. Já para não falar dos sumos e doces que se fazem (e as irmãs nos oferecem!). Tudo serve para aproveitar este dom da natureza. Também ele há-de acabar e dar lugar a outras frutas. Fico sempre surpreendida com esta sazonalidade dos produtos, já esquecida no nosso mundo, onde há de tudo, durante todo o ano.
Na semana passada, e porque como trabalho em alguns fins-de-semana tenho direito a gozar esses dias, meti cinco dias de compensações e fui viajar com duas colegas. Andamos a pensar onde ir e chegamos à Gâmbia, como destino. Para o sul e o leste não é possível ir devido aos problemas na Guiné-Conakry; para o oeste… é mar, só se fossemos para os Bijagós, mas todas já conhecíamos algumas ilhas. Sobrou-nos o norte. O Senegal e a Gâmbia. Como o Senegal é já ali, já era conhecido por uma das colegas, optamos pela Gâmbia, e optamos muito bem!
Passamos dois dias em viagem, um à ida e outro no regresso, e três dias a aproveitar o país.
A Gâmbia é o mais pequeno país africano (sete vezes menor que Portugal!) e é rodeado pelo Senegal por todos os lados, excepto pelo lado ocidental, onde faz fronteira com o mar. O seu território estende-se para o interior nas margens do rio Gâmbia. Começou por ser um território de ocupação portuguesa, onde chegaram em 1444 sobretudo para a compra de escravos, mas vendido à coroa inglesa, no século XVI, tendo sendo um território sempre disputado pelos franceses. A Gâmbia é independente desde 1965 e tem como língua oficial o inglês. Partilha com a Guiné o facto de ter uma língua oficial diferente numa região toda ela francófona.
As viagens, por terra e sem transporte próprio, como foi o nosso caso, são uma aventura… Partimos às 10.30 de Bissau e chegamos a Bakau às 19h! Apanhamos 7 places em Bissau até Ziguinchor, já no Senegal; dali partimos noutra para Seleti, fronteira com a Gâmbia; daí para Brikama, oeste do país; e daí para Serekunda. Finalmente apanhamos um táxi para Bakau, cidadezinha à beira da praia, onde ficamos. Tudo isto a passar em inúmeros controlos de passaporte, de entrada e saída do país (em poucas horas cruzamos três países!), inspecção das mochilas, etc. Que dias!
No primeiro dia em Bakau decidimos ir de manhã à praia (afinal, somos iguais aos turistas de todo o mundo! E a Gâmbia tem praias bem bonitas!) e à tarde visitar o parque natural de Tanji, onde, para além de um passeio de três horas num percurso que incluía mata e beira da praia, pudemos observar os pássaros. A Gâmbia é conhecida pelo número incontável de espécies que possui. Devo confessar que não sou grande amante de animais em geral, mas o passeio foi bonito e lá andamos nós de binóculos atrás de não sei bem o quê! :D
No segundo dia fizemos uma viagem de barco pelo rio Gâmbia. Foi, para mim, o dia mais enriquecedor. Saímos do porto de Banjul, a capital, e partimos para leste, para o interior do país, subindo o rio. Foram três horas até alcançar os locais a visitar – Albreda/Jufureh e a James Island, Património Mundial da Humanidade. Os dois primeiros locais são pequenas localidades na costa, conhecidas por terem sido um grande entreposto de comércio de escravos (iniciado pelos portugueses e continuado, como já referi, por ingleses e franceses), onde se pode visitar o Museu da Escravatura e alguns pequenos monumentos construídos em celebração do fim da mesma. Realiza-se aqui um festival bianual contra a escravatura, mundialmente famoso. Muitos lembrar-se-ão da série dos anos 80, “Raízes”, sobre o escravo Kunta Kinte, baseada no livro de Alex Haley, afro-americano descendente do herói do livro. Eu não me lembrava (os meus interesses nos anos 80 ainda eram outros!!) mas o Miguel lembra-se muito bem. E Jufureh é a tabanca de Kunta Kinte, de onde ele foi retirado e vendido para a América. A James Island, Património Mundial da Humanidade, ilha a cerca de 4 kms das tabancas da costa, é o local onde os escravos eram guardados para não fugirem. Conta a história que a quem se conseguisse libertar do forte e chegar a Albreda seria dada a liberdade, mas conta-se também que nunca ninguém conseguiu esse feito. A ilha está a sofrer um aceleradíssimo processo de erosão, também pela subida do nível das águas do mar, e já não se vê muito do antigo forte, em grande estado de ruína. No entanto, a ilha tem qualquer coisa de mágico – talvez pela sua pequenez, talvez pela nebulosidade com que nos recebe, talvez pelos inúmeros embondeiros que cresceram e que parecem, eles próprios, serem os únicos suportes da ilha, meia suspensa, pelas suas enormes raízes. É um lugar bonito e com um espírito próprio.
O regresso a Banjul não foi fácil devido às marés (apesar de ser rio, tem uma enorme extensão de água salgada com influência do mar e das marés) e apanhamos um pouco de tempestade. Também é normal e dá um pouco mais de cor à aventura. :D
No terceiro dia visitamos Brikama, algumas tabancas (queríamos comparar a vida real da Guiné com a vida real da Gâmbia) e o mercado de Serekunda. Foi um dia bem passado! Aliás, foram uns dias bem passados!
O maior problema da Gâmbia é o seu tipo de turismo – muitas mulheres de meia idade, europeias, vêm aqui à procura de gambianos jeitosos que passem consigo as suas férias e sejam seus “namorados” por um período mais ou menos longo. No fundo é um país de grande prostituição masculina, o que faz com que as mulheres sejam abordadas com muita insistência nas ruas, o que nos fez alguma confusão. Chegamos a estar a jantar e estarmos rodeadas de casais deste tipo – mulheres brancas de meia idade e gambianos jovens – e nós as únicas três jovens, brancas e sem gambianos à mesa! Que estranho!
Lá regressamos nós à vida real, em Bissau, eu já cheia de saudades do maridinho! :D
No regresso, nada de novo – Bissau inteira está preocupada com a situação da Guiné. A instabilidade mantém-se; o primeiro-ministro está fora do país há algum tempo (com medo de ser morto, dizem por aqui); ainda não há chefe de estado-maior das forças armadas (CEMFA) e o anterior continua preso pelos rebeldes do 1 de Abril; o vice-CEMFA, um dos rebeldes, quase que se auto-proclamou como novo CEMFA e anda por aí livremente a querer mandar no país; o Bubo, o outro rebelde, está a juntar os seus apoios militares e é acusado de ser a maior personalidade do narcotráfico na Guiné… Nada está, de facto, resolvido, e a comunidade internacional diz que se não houver inquérito e justiça para com os rebeldes, vai lançar sanções contra a Guiné, podendo mesmo passar pela diminuição drástica do apoio e pelo encerramento e debandada das delegações no território… E estamos nós fritos outra vez! É incrível e revoltante como uns poucos, por questões de poder, podem fazer mal e ditar os destinos de tantos, de um país inteiro! Veremos como vai isto acabar, mas o clima é tenso e parece sempre que em breve acontecerá qualquer coisa. Como se pode viver assim? Vamos aprendendo, todos os dias!
De resto, tudo normal! Como dizem os próprios guineenses, habituados já a esta “normalidade”.
O mês de Junho é quase de recta final – visita às poucas escolas que faltam, redacção de centenas de relatórios, inserção de muitos dados, preparação das formações de Junho e das dezasseis sessões intensivas de Julho… Vai ser demasiado burocrático para meu gosto mas… também é um trabalho necessário! O Miguel continua por Bissau e o trabalho corre-lhe bem. É tudo novo e pressupõe uma nova adaptação. Ressentimo-nos, reconhecemos, da distância entre Bissau e Canchungo, antes tão habituados estávamos a partilhar 24 horas por dia. Mas as visitas mútuas ajudam a aliviar as saudades e eu venho (ou ele vai) todos os fins-de-semana, tornando-os prolongados com os dias de compensação (muitos) que ainda me restam gozar.
E bem, despedimo-nos, mais uma vez, com um abraço apertado. Vão mandando notícias, que é bom saber o que se vai passando por aí.
Até à próxima e “passa sabi” (fiquem bem!)

01/05/10

Os diferentes conceitos de casa...

Portugal, apesar de deixado há apenas duas semanas parece estar já tão longe…
Gosto sempre de dizer que não consigo ver estas duas minhas vidas numa mesma linha recta mas sim em duas linhas paralelas, em dois tempos e espaços diferentes, em duas dimensões distintas. Penso que não é possível levantar voo em Lisboa e aterrar em Bissau, sem sofrer um choque que vai muito para além de tempos e espaços. Não quer dizer que se não goste, é apenas a constatação de um facto!

Estou no jardim da nossa casa em Bissau, um calor magnífico, árvores e flores bonitas, uma mesa de esplanada… luxos a que eu não estava habituada, mas que me surgem, ao fim-de-semana, como uma bênção para o corpo e para a alma. A água corre da torneira e a luz, apesar de intermitente, permite-nos ter iluminação, carregar telemóveis e computadores e ter um frigorífico eléctrico. Mas o melhor é mesmo o estar com o Miguel.

Volto atrás. Os dias passados em Portugal foram óptimos para sentir o calor da família, dos amigos e de todos os outros por quem fomos passando e que, mesmo sem sentirmos muito, fomos marcando de uma forma ou de outra. Apesar do sentimento de cansaço por não podermos parar um minuto entre as visitas, os lanches e jantares, é uma riqueza apercebermo-nos do quanto temos à nossa espera no outro canto do mundo.

Estranho, nunca tinha ido de férias a Portugal!

Apesar de uma ou outra discussão mais intensa, normal porque estas já são, de facto, as “nossas causas”, não foi difícil sentir-me compreendida. Sinto que o que não é fácil, é explicar o que de facto vivemos e sentimos, se vive e se sente por aqui. Há experiências que não se descrevem… talvez todas as experiências muito marcantes e muito interiores não se possam descrever. Por isso gostava que viessem e vissem, e tocassem, e ouvissem, e experimentassem e sentissem. É algo muito nosso que, por mais esforço que façamos, não se consegue contar.
Foram dias muito felizes, entre abraços, perguntas e novidades mútuas. Foram dias felizes e agradeço-vos por isso.

O Miguel voltou mais cedo, como sabem, devido aos novos compromissos profissionais, e foi quase directamente para as Ilhas, onde a Tiniguena tem muitos projectos e ele foi inteirar-se da realidade. Foi de canoa, apanhou tempestade no mar e chegou todo encharcado depois da canoa meter água por todos os lados (porque é que estas coisas emocionantes só acontecem a ele, que não gosta nada destas coisas, e não a mim, que iria ficar toda emocionada???)… Os dias lá foram magníficos, segundo o que ele conta. Uma vivência muito perto das populações, a comer mangas e cajus de árvores que, de tão carregadas, deixam cair os seus frutos, a participar em cerimónias tradicionais, etc. Está todo contente com as suas novas funções.

Quem sentiu muito a diferença fui eu. Como eu já dizia, aterrar em Bissau é sempre um murro no estômago. Dormir numa casa, alugada por nós, mas a qual nunca tinha visto, que ainda não me é nada. Volto a Canchungo, a minha CASA, mas também essa está mudada, sem a presença sorridente do Miguel a iluminar os cantos da casa, a fazer parecer pouco importante a falta de água, a falta da luz… Que pieguice, bem o sei, mas confesso que me custou aquela primeira semana por cá. Para mais, o trabalho todo atrasado, formação para dar no sábado e todo o material para preparar… o Miguel sem rede para me ligar, e quando o conseguia era sempre aos soluços, mal dava para falar… E fizemos quatro anos de casamento no meio desta confusão! :D

O que valeu foi a presença do Cirilo e da Catarina que, como família que somos, de tudo fizeram para que eu não me sentisse triste. Até foram "jantar fora" comigo no dia do aniversário! :D

Na segunda feira, 26, ele chegou das Ilhas, voou para Canchungo, e tudo voltou ao normal! Cheguei, chegamos (sim, porque ele tinha sentido o mesmo que eu), finalmente, a CASA!

Por aqui… tudo normal, como na Guiné! Ou seja, a instabilidade política mantém-se. Fala-se de nova confusão para breve – ainda não há chefe de estado-maior das forças armadas (cemfa), o mais provável é que seja um dos revoltosos, o que a comunidade internacional não aceita. Mas é quem detém o poder dos militares. Fala-se num provável atentado ao primeiro-ministro. A verdade é que quando o presidente viajou, com o vice-cemfa, na semana passada, numa visita oficial à Líbia, o primeiro-ministro também viajou para a Europa, de urgência, dizem que percebendo que seria a altura ideal para sofrer um atentado. No fim-de-semana passado houve qualquer coisa. Ninguém sabe bem o quê, mas esteve para acontecer algo, pois todos falam nisso. E ninguém sabe nada! É fantástico! E nós temos de aprender a viver desta forma, é a única solução. Portanto, não se admirem se a Guiné-Bissau aparecer nas notícias, em breve, por motivos menos agradáveis!

O calor chegou a valer… Dificulta o adormecer e põe-nos o suor a correr no corpo, que fica com um cheiro intensíssimo. Tudo tem um cheiro intenso nesta terra!
De vez em quando já se sente um vento a querer puxar a chuva, eu já a sinto no ar, mas todos me gozam, dizendo que ela só virá no final do mês. O calor faz-me desejar que chegue mais cedo, para refrescar casas e corpos! Sei que depois a Guiné ficará intransitável e todos ficaremos mais ou menos reféns do lugar onde estamos mas a lembrança da chuva a bater nos telhados, do cheiro que a terra liberta, do coaxar dos sapos toda a noite, do banho tomado à chuva … Uhmmm! Que venha, que venha depressa!...

Com esta época quente veio também a época da manga, do caju e do ananás. É fantástico o que se aprende aqui sobre a natureza. Como não temos os “frescos do Pingo Doce”, acabamos por perceber as “épocas” das coisas, os ciclos. A paisagem ficou linda, linda. Como grande parte das árvores são mangueiras e cajueiros, é lindíssimo viajar e ver as árvores pintadas com o amarelo e laranja das mangas, penduradas de forma mágica, e o vermelho vivo dos cajus, quase lembrando cerejas. Pela primeira vez comi caju. Em Moçambique já tinha aprendido (ai esta ignorância!) que o caju que nós conhecemos em Portugal não é exactamente o fruto do cajueiro. O cajueiro tem um fruto vermelho vivo, muito doce e com uma textura estranha, que é o caju (a mim faz-me lembrar o diospiro), e que, na ponta, tem um rabinho, como se fosse um feijão. Aí dentro é que está a castanha de caju, muito apreciada na Europa, e que, depois de torrada, se come, que é o que nós conhecemos como caju. Como eu dizia, já tinha aprendido isto em Moçambique, mas nunca tinha tido a oportunidade de comer o caju, que, a dizer a verdade, ainda não me convenceu muito mas… vou dar-lhe uma segunda oportunidade!

Para a Guiné, esta é uma época única no ano, visto que o caju representa cerca de 90% da exportação do país, o que significa que é quase a única altura em que a maioria das pessoas das tabancas sabe o que é o dinheiro, é a única cultura de renda para a GB. Explico-me. Nesta época, o governo decreta a abertura da campanha do caju, e o sistema já está montado com uma série de empresas a comprar o produto em bruto e a fixar o preço do quilo (que este ano está em cerca de 200francos cfa – 30 cêntimos). Assim, todos estão a proceder à apanha do caju de forma a poder receber algum dinheiro, para alguns, o único que recebem todo o ano.

Este facto tem uma grande implicação nas escolas já que muitos pais não deixam os filhos irem às escolas durante o período da campanha de caju para que estes possam ir ajudar na sua apanha, o que faz com que muitas escolas tenham uma taxa de absentismo elevadíssima nesta altura e que os alunos percam cerca de um mês de aulas!
Algumas escolas, para poderem ter algum dinheiro para as suas despesas, oferecem as suas turmas para irem apanhar caju em grandes propriedades, a que chamam o dia de “trabalho produtivo”. Iniciativas que a nós nos parecem bizarras, mas que parecem fazer todo o sentido neste tipo de economia em que as escolas estão por sua conta, já que o estado não consegue dar-lhes nenhum tipo de financiamento.

Um dia destes queixava-me, em casa, que não encontrava caju à venda no mercado, o que não me parecia fazer sentido com tanto que eu via a cair pelas estradas das tabancas. O Almeida, rindo-se, disse-me “é exactamente por isso, por toda a gente ter tanto caju que não vale a pena pôr à venda que ninguém compraria”. Boa questão! Nunca tinha pensado assim. “E para os brancos, que não têm ponta (terreno de cultivo), porque não vendem?” “Porque em Canchungo não há brancos que justifiquem!” Ok, percebi! Mas ele prometeu-me que me iria trazer muitos quando fosse à ponta dele.

Ao nível do trabalho, para além do imenso trabalho burocrático (relatórios de observação de aulas, introduzir valores de provas em grelhas estatísticas, etc) e da preparação das sessões de formação com os meus formadores, continuo a segunda ronda da visita às escolas para observar as aulas. Esta semana estive numa escola que parecia o paraíso – feita de traves e folha de palmeiras, no meio dos cajueiros e mangueiras, com o som do vento a agitar as árvores, o cantar das aves e vozes de tantos animais (vacas, cabras, porcos…)… mesmo, mesmo paradisíaco! O pior foi mesmo o facto de ter de me sentar num pau com cerca de 10 centímetros de largura onde, como podem imaginar, eu não cabia nem metade, durante cerca de duas horas. Se já para os miúdos não é confortável, imaginem para mim, que ocupo um espaço considerável! O melhor momento foi mesmo quando todos se levantaram para cantar o hino nacional e eu pude levantar-me e descansar um pouco. :D O mundo não é mesmo perfeito, mas acho que se me tivessem deixado sentar no chão, eu me teria sentido bem perto da perfeição naquele momento!

E termino com um acontecimento muito, mas muito caricato: no sábado passado eu tive formação toda a manhã, das 8 às 14h. Cheguei a casa, comi qualquer coisa e fui deitar-me na cama, deixando a porta da casa aberta, apenas fechada no mosquiteiro, pois esperava que os meus formadores regressassem todos das respectivas formações para me trazerem o material, fazermos contas, etc, e me chamassem da porta de entrada. Não imaginam o susto que apanhei quando acordei com uma pequena chimpanzé a pular em cima da minha cama, na qual eu estava deitada a dormir! Pois… é mesmo verdade! Acordei com a Helga a saltar para cima da minha cama!
A Helga é uma chimpanzé que uns chineses “adoptaram” mas que, como fazia muitas asneiras e era muito traquina, a ofereceram ao seu funcionário guineense, que a deixa vaguear um pouco pelas ruas de Canchungo. Já não é a primeira vez que ela tenta entrar em nossa casa. Já de outras vezes eu ouvi mexer no trinco do mosquiteiro e vindo ver quem era dou de caras com a Helga. Desta vez ela conseguiu forçar mesmo o trinco e entrar em casa indo directa ao meu quarto, que estava com a porta aberta para ouvir os formadores a chamarem por mim. Subindo para a cama, desata aos pulos, que me acordaram, dando eu um pulo para fora da cama. Fiquei em pânico! Penso que todos conhecem a minha relação difícil com os animais… não gosto de muitas intimidades! Pois tive de a ver a saltar em cima da minha cama, qual criança animada, da cama para a cadeira, da cadeira para a cabeceira da cama, da cabeceira atirar-se, com uma cambalhota no ar, para a cama, novamente, pendurar-se nos batiks que eu tenho colados na parede, fazendo com que se descolassem (depois de tanto trabalho!), brincasse com as almofadas… Bem, depois de um momento de pânico, veio aquele em que olhei para todo o lado à procura da câmara para os “apanhados” ou de alguém que me estivesse a pregar uma partida… e depois o momento de me desatar a rir à gargalhada e me divertir com as piruetas da macaquita! Comecei, depois de me recompor, o processo de a devolver à rua. Foi lento e árduo! Ela não queria ir de tão divertida que estava a saltar em cima da minha cama… ria-se como uma criança! Lá comecei a tentar empurrá-la com a minha mão para que ela saísse do quarto, mas ela devia perceber um novo impulso pois dava mais uma cambalhota e não saía. Começo a falar então com ela, perguntando-lhe se ela falava português ou crioulo! :D Acho que endoideci um bocado, reconheço, mas como ela não queria ir a mal, pensei que conversando me safasse! Fui à rua procurar alguém que me ajudasse mas como era a hora de maior calor, não se via ninguém. Voltei para dentro e com uma atitude de perseguição cerrada, muitos argumentos em crioulo, e a atracção de uma banana (genial, hein?), lá consegui que ela deixasse o meu quarto indo enfiar-se no escritório. Bem, pelo menos estava mais perto da porta. Novas tentativas de a pôr na rua mas ela novamente atraída pelo balanço das cortinas do escritório, onde se pendurou, por subir e descer a pasta da minha guitarra… entretanto veio alguém que me ajudou a tentar tirá-la e conseguimos trazê-la para a entrada da casa, mas ela agarrou-se a uma perna da mesa da entrada e começou a chorar… incrível, parecia mesmo uma criança! Quase me comovi! O rapaz também e foi-se embora, dizendo que ela não queria mesmo deixar a casa! Fiquei possessa… não queria ela mas queria eu que ela saísse! Olha que esta! Usei novamente a técnica da banana e consegui que ela saísse para o terraço, finalmente! Mas não é que ela ficou o resto da tarde à porta de casa a choramingar, com o dedo na boca? Poça! Que coisa me havia de acontecer! E a cena só acabou por volta das cinco da tarde quando chegou um dos meus formadores e vendo-a ali a carpir a levou ao dono, ralhando com ele por não a manter na linha! Pobre Helga! E pobre de mim que tive de deitar toda a roupa que tinha no quarto para lavar e na qual ela se andou a esfregar e a pendurar. Ainda hoje acho que o meu quarto ficou com cheiro a chimpanzé, mas deve ser sugestão! :D

E bem, até ao meu regresso a Bissau!
Abraço e fiquem bem!